segunda-feira, 30 de março de 2026

RAUL SEIXAS PREVIU A PRÓPRIA MORTE E NINGUÉM ACREDITOU

Raul Seixas no Teatro Pixinguinha, São Paulo, 1981

        Quando se fala na morte de Raul Seixas, a maioria das pessoas pensa apenas no no dia 21 de agosto de 1989. Mas a verdade é que o fim começou muito antes disso. Não foi repentino, não foi um acidente isolado e definitivamente não foi apenas consequência de excessos. Os últimos anos de Raul Seixas foram marcados por um conflito silencioso.

          Um homem que ainda tinha lucidez criativa, mas um corpo que já não acompanhava. Um artista que via tudo com clareza, mas já não conseguia lutar contra si mesmo. No final da década de 80, Raul já não era mais visto como a figura mítica dos anos 70. Para parte dos media, era tratado como um artista decadente.

          Para a indústria, um problema difícil de lidar e para o público, uma incógnita. Mas longe dos palcos existia um Raul que poucos conheciam, mais introspectivo, mais cansado e, acima de tudo, consciente. Raul sabia que o seu corpo estava a falhar. O diabetes diagnosticado anos antes avançava de forma agressiva. As complicações se acumulavam, problemas de visão, fadiga constante, internamentos frequentes.

          Mesmo assim, recusava-se a abandonar a música. Não por teimosia, mas porque a música era a única coisa que ainda o mantinha de pé. Amigos próximos relatam que Raul falava abertamente sobre a morte, não com medo, mas com ironia, como se já soubesse que o tempo estava acabando. Em entrevistas, as suas respostas começaram a mudar.

          Menos provocação gratuita, mais frases longas, mais silêncios. Era como se ele estivesse organizando os próprios pensamentos antes de partir. Ao mesmo tempo, o mercado exigia mais espetáculos, exposições, compromissos. Mesmo debilitado, Raul aceitava, não porque queria, mas porque precisava. Financeiramente, a situação era frágil, royalties mal geridos, contratos antigos e uma indústria que já não protegia os seus artistas.

          O Raul trabalhava mesmo quando o corpo pedia pausa e isso cobrava um preço. Quem esteve com ele nesta fase relata um contraste perturbador. Havia momentos de lucidez extrema, reflexões profundas, ideias claras e logo de seguida lapsos físicos graves, quedas, desmaios, crises de saúde. O mito começava a estalar. Mas Raul ainda tinha algo que ninguém conseguia tirar dele. Consciência.

          Ele sabia exatamente o que estava acontecendo. Sabia que estava a se aproximando-se do limite e talvez por isso, os seus últimos trabalhos soem tão confessionais como se cada música fosse uma despedida disfarçada. Mas o que quase ninguém se apercebe é que o fim de Raul Seixas não foi silencioso. Foi acompanhado de avisos, de sinais claros e de um último período onde tudo começou a desmoronar de forma irreversível.

          E é exatamente sobre este período que a próxima parte revela, porque antes da morte física, Raul enfrentou um colapso muito mais profundo. Um colapso que aconteceu longe dos holofotes e que mudou para sempre a forma como via a própria existência. Nos anos finais da vida, Raul Seixas passou a viver em constante estado de alerta.

          O corpo já não respondia como antes. O diabetes, mal controlado durante longos períodos, começou a cobrar um preço elevado. As crises tornaram-se frequentes. Visão turva, dores intensas, fraqueza repentina. Em alguns momentos, Raul mal conseguia ficar em pé. Mesmo assim, continuava aceitando apresentações. Não era vaidade, era sobrevivência.

          Cada espetáculo representava uma tentativa de manter a A dignidade, a independência e, principalmente, o vínculo com o público. Mas o palco já não era um lugar seguro. Em algumas apresentações, Raul necessitou de ser amparado por músicos e produtores. Noutras, mal conseguia terminar uma música. A imprensa começou a explorar essas imagens.

          Fotos e vídeos circulavam mostrando um artista fragilizado. Para muitos, aquilo era decadência. Para quem estava perto era resistência. Raul sabia que estava a ser observado e isso incomodava-o profundamente. Ele não queria piedade nem pena. queria ser ouvido. Em entrevistas deste período, as suas palavras transportavam um tom diferente, menos provocação, mais reflexão.

          O Raul falava sobre o tempo, sobre os limites, sobre escolhas e, curiosamente, falava muito sobre a lucidez. Ele repetia que preferia ter clareza mental mesmo com o corpo falhando, do que viver anestesiado. Essa escolha, porém, não vinha sem consequências. Os médicos alertavam para a necessidade de repouso, alterações de rotina, tratamentos rigorosos.

          Mas Raul resistia não por negação, mas por convicção. Para ele, a vida sem criação não fazia sentido. Nos bastidores, amigos relatam discussões constantes. Havia quem lhe pedisse que parasse, que se cuidasse, que descansasse. Raul ouvia, mas raramente obedecia. Em muitos momentos, parecia estar negociando com o seu próprio fim, empurrando limites, testando o corpo, como se quisesse provar que ainda estava no controle.

          Mas a verdade é que o controlo já estava a escapar. As hospitalizações se tornaram mais frequentes. Hospitais passaram a fazer parte da rotina e cada saída era acompanhada de menos energia do que a anterior. Mesmo assim, Raul continuava a escrever, anotava ideias, frases soltas, reflexões profundas. Algumas dessas notas nunca chegaram a tornarem-se músicas.

          Outras ganharam forma e hoje soam quase como despedidas. Durante este período, Raul passou a falar abertamente sobre o medo de perder a autonomia. Mais do que a morte, o que o assustava era deixar de ser ele próprio, ser controlado, ser silenciado, ser reduzido. Esse medo moldou as suas últimas escolhas e, sem se aperceber, empurrou-o para situações cada vez mais extremas, situações que em pouco tempo iriam desencadear o momento mais delicado de toda a sua trajetória.

          Ponto de ruptura que não envolveu apenas saúde, mas a solidão, o abandono e as decisões que ecoariam até ao último dia. À medida que o corpo de Raul Seixas enfraquecia, algo ainda mais profundo começava a desfazer, as relações. Amigos antigos foram-se afastando, alguns por cansaço, outros por não saberem lidar com a fragilidade.

          A indústria musical, que antes disputava a sua presença, passou a tratar o Raul com frieza. Convites diminuíram, os projetos foram arquivados, o mito ainda existia, mas o homem não. Raul começou a passar longos períodos sozinho, horas, dias, em quartos simples com poucas visitas. A solidão não era apenas física, era emocional.

          Mesmo quando estava cercado, Raul parecia distante, pensativo, calado. Quem convivia com ele relata que o Raul falava pouco, mas quando falava ia fundo. Reflexões sobre o fracasso, sobre o legado, sobre o que restaria quando tudo acabasse. Não se via como um génio incompreendido. Via-se como alguém que pagou um preço elevado por nunca se ter adaptado.

          E esse preço estava a ser cobrado no fim. A saúde continuava a se deteriorando. As limitações físicas se tornaram evidentes. Caminhar era difícil, ver pior ainda. E isso afetava diretamente a sua autoestima. Raul, que sempre utilizou a imagem e a presença como parte do discurso artístico, sentia-se agora exposto, frágil.

          Havia dias em que ele simplesmente não queria sair da cama, não por preguiça, mas por exaustão. O peso da própria história começava a esmagá-lo. Em conversas íntimas, Raul confessava sentir que estava a ser esquecido, não pelo público em geral, mas por quem realmente importava, pelas pessoas que estiveram ao seu lado quando tudo começou.

          Esta sensação de abandono intensificou-se nos meses finais. Raul começou a evitar contatos, recusava visitas, ignorava os telefonemas, era como se estivesse a preparar para desaparecer. Mesmo assim, continuava pensando na própria obra. Ele sabia que a sua música sobreviveria, mas não tinha certeza se a sua história seria contada corretamente.

          Isso incomodava-o profundamente. O Raul não queria ser recordado apenas como um excessivo ou como um caso trágico. Queria ser compreendido e talvez por isso, nas suas últimos dias tenha falado mais sobre consciência do que sobre a fama, sobre liberdade interior mais do que o sucesso. Esta fase de isolamento não foi um acidente, foi uma resposta, uma tentativa de proteger o que ainda restava de si mesmo.

          Mas o isolamento também trouxe consequências graves. Sem apoio constante, sem acompanhamento adequado, Raul ficou vulnerável e bastou um último empurrão para que tudo desmoronasse de vez. O que levou Raul Seixas até ao limite final não foi um único acontecimento, foi uma sequência, pequenas negligências, decisões adiadas. Alertas ignorados.

          Nos meses que antecederam a sua morte, o estado de saúde de Raul tornou-se crítico. As crises diabéticas intensificaram-se. Havia dias em que mal se conseguia alimentar. O controle da glicose era irregular e o corpo, já exausto, já não conseguia compensar. Mesmo assim, Raul continuava resistindo à ideia de uma rotina médica rígida.

          Os hospitais incomodavam-no, regras sufocavam-no. Para alguém que passou a vida lutando contra os controlos externos, aceitar limites impostos pelo corpo era quase insuportável. Em alguns momentos, parecia aceitar a situação. Noutros, simplesmente ignorava. Esta oscilação criava um cenário perigoso. Amigos próximos tentaram intervir.

          Houve conversas duras, pedidos sinceros. Mas Raul estava cansado de ser conduzido. Queria decidir como viver os próprios dias. Esse desejo de autonomia que sempre definiu a sua personalidade tornava-se agora uma faca de dois gumes. A solidão já presente se aprofundou. Raul passou a recusar ajuda com maior frequência.

          Havia um sentimento claro de encerramento, como se ele soubesse que o tempo restante era curto. Em algumas ocasiões, comentou de forma indireta que já tinha feito tudo o que precisava de fazer, não como uma despedida formal, mas como uma constatação. O ambiente à sua volta refletia esse estado. Poucos objetos, pouca movimentação.

          Silêncio. Raul vivia dias de introspecção profunda. ainda escrevia, ainda pensava, mas já não planeava o futuro. Era como se estivesse a viver em suspensão. E depois veio o episódio que selou o destino. Uma crise grave, uma falha orgânica que o organismo não conseguiu mais conter. Não houve espetáculo, não houve drama público, foi silencioso.

          Raul foi encontrado em casa sozinho. O coração tinha parado. A notícia se espalhou-se rapidamente e com ela uma onda de choque. O país perdeu um dos seus maiores artistas, mas quem conhecia de perto sabia. Aquilo não foi inesperado. Foi o fim de um processo longo, um processo marcado pela resistência, orgulho e escolhas difíceis.

          Mas faltava ainda algo essencial, a forma como Raul seria recordado, porque a a morte encerrou o corpo, mas não a história. E o que aconteceu depois mudou para sempre a percepção sobre ele. A A morte de Raul Seixas não encerrou apenas uma vida. Ela abriu um vazio, um silêncio estranho para alguém que sempre fez barulho contra tudo o que tentava enquadrá-lo.

          Quando a notícia se alastrou, o impacto foi imediato. Rádios interromperam programações, jornais fizeram manchetes, mas ao mesmo tempo muitas perguntas ficaram no ar. Houve homenagens, discursos emotivos e também julgamentos. Parte da comunicação social resumiu a sua história a excessos e autodestruição, como se tudo pudesse ser explicado de forma simples.

          Mas quem acompanhou Raul de perto sabia que esta versão era incompleta. O Raul não foi apenas um artista que se perdeu, foi alguém que pagou um preço elevado por viver de acordo com as próprias ideias. Sua obra, Longe de Morrer com ele, ganhou nova força. As músicas passaram a ser ouvidas sob outra perspectiva.

          Letras que antes pareciam irónicas soavam agora como avisos. Reflexões sobre a liberdade, controlo e existência tornaram-se ainda mais atuais. Com o passar do tempo, Raul deixou de ser apenas um ícone musical. Tornou-se um símbolo da recusa em adaptar-se, da busca incessante pela autonomia. da luta contra sistemas invisíveis.

          Sua morte trouxe à tona debates importantes sobre a saúde mental, sobre o abandono de artistas, sobre o custo do génio num mercado que consome e descarta. Hoje, décadas depois, Raul Seixas continua presente nas playlists, em citações, em conversas, não como alguém perfeito, mas como alguém verdadeiro. E talvez seja exatamente isso que o mantém vivo.

O Raul nunca quis ser um exemplo, nunca quis ser santo, quis ser livre, mesmo quando isso significava andar à beira do abismo. A história dos seus últimos dias não deve ser vista apenas como uma tragédia, mas como um alerta sobre limites, sobre as escolhas e sobre a importância de compreender o ser humano por detrás do mito. Porque enquanto existirem pessoas que se sentem sufocadas, questionadas ou fora do lugar, Raul Seixas continuará a fazer sentido e a sua voz, mesmo em silêncio, seguirá ecoando.

 

                                                            Janeiro 19, 2026

  

Fonte: 

https://news2.goldnews24h.com/raul-seixas-previu-a-propria-morte-e-ninguem-acreditou-admin3/


quarta-feira, 4 de março de 2026

CORDEL - O BARULHO INSANO DE CADA DIA - Ampliado

                                          


Parece até piada o que vou lhes dizer,

Porém, a verdade tem que prevalecer:

VIZINHO RUIM NEM O DIABO QUER TER!


CAMPINA GRANDE/PB, 2021


Não pedirei segredo ao desabafar.

Em versos, posso ser mais incisivo:

Vizinho ruim, que vive a perturbar

Com seu barulho de som abusivo,

Preste atenção no que vou relatar,

Pois não pretendo repetir o aviso:


     Maneire essa barulheira do diabo,

     Seu ignorante, filho de uma puta!

     Tá com o ouvido dentro do rabo,

     Que somente alto é que se escuta? 

     Respeite os vizinhos do seu lado

     Que discordam dessa tua conduta.


Quer se exibir, fique rico pra isso;

Tu és apenas um pobre amostrado!

Canalha, não cumpre compromisso

E nunca paga o que compra fiado.

Na falta de provas, ficarei omisso,

Mas o som do teu carro é roubado...


     Teu carro velho não vale cinco mil,

     Mas o som vale uns dez mil Reais.

     Essa prática infestou todo o Brasil,

     Onde só os veículos são factuais.

     Incoerência como tal nunca se viu,

     Uma verificação revelaria bem mais.


Dentro de casa, as caixas montadas

Fazem qualquer parede estremecer.

Vizinhos que aguentem as porradas,

Antes das 22 horas, bota pra descer.

Saiba que essa lei mudou, camarada,

Tens algumas obrigações a obedecer.


     As tuas festinhas, tuas badernas,

     Regadas só a cachaça e maconha,

     Lembram primitivos das cavernas,

     Ignorantes, em reunião medonha.

     A música difundida é uma merda;

     O homem de bem se envergonha.


És um imoral, tu e teus “parisseiros”,

Gentinha que não respeita ninguém.

Transformam a rua num chiqueiro

Com o lixo sonoro que os entretêm.

Vai pro inferno, porco maloqueiro,

Tu, teus amigos e tudo que convém!


     Desde que comprou essa lata velha

     E instalou esse som no porta malas,

     Que a paz diária aqui nessa “favela”

     É uma coisa que ninguém mais fala.

     Quando como, não desce na goela,

     E ao tentar engolir, a comida entala.


Desaforo deixa qualquer um doente

Nervos retraem, faz o corpo tremer.

Conviver com indivíduos indecentes

É realmente algo pra se arrepender.

Ou se muda para um lugar diferente

Ou vai amargar a escolha de sofrer.


      Quem diabos nunca se incomodou

      Com essa desgraça dita “paredão”,

      Que uma música boa jamais tocou,

      Disseminando lixo para a multidão?

      Foi onde o mau gosto se confirmou,

      Ainda chamam a isso de ostentação.


Não tem coisa pior pra um vizinho,

Morar ao lado de gente barulhenta.

Agindo como se vivessem sozinhos,

Rompendo a paz de forma violenta.

Noutra hora, se mostram bonzinhos,

Porém, no geral é uma raça nojenta.


      Uma vizinhança ruim como a minha

      Eu não desejaria para mais ninguém.

      Gente acéfala, não diria mesquinha,

      Só habituada a “repartir” o que tem:

      Cana, maconha, som e pé de galinha,

      Crendo que estão praticando o bem.


Um vizinho amaldiçoado que abusa

Fazendo barulho até as madrugadas,

Com o aparelho de som nas alturas

Incomodando pessoas civilizadas.

Esta é, sem dúvida, a única cultura

Dessa rua para sempre desprezada.


  Por isso o meu recado, em especial,

      Mesmo que seja de forma indireta,

      Vai pra esse sujeito da cara de pau

      Que mantém sua rotina nada discreta.

      Liga som alto, faz o maior Carnaval:

      A sua falta de bom senso é completa.


Quem não conhece, que te compre,

Projeto sem-vergonha de bandido!

Inimigo do silêncio, a paz corrompe,

Denegrindo, por tabela, meu ouvido.

É quando somente a lei interrompe

As atitudes desse sujeito pervertido.


      A ação da polícia resolve a questão

      De imediato, porém, só no momento.

      Depois recomeça toda a provocação,

      Agora acompanhada de xingamento.

      Os “donos da rua” regem a situação,

      Matam e morrem nesse seu intento.


O que resta ao cidadão acovardado

É nunca bater de frente, isso jamais.

Com essa gentalha, de dúbio passado

E que já não respeita ninguém mais,

Chamar a polícia, só no anonimato,

E torcer pra que tudo acabe em paz. 


      Portanto, eu te direi, seu DJ maldito,

      Tu e essas tuas músicas de puteiro:

      Nelas os teus chifres estão descritos,

      Pois tua mulher te corneia por inteiro.

      Enquanto ela te trai e engana bonito,

      Tu “entorna” com outros cachaceiros.


Todo corno gosta de zoada, é fato,

Isso facilmente se pode demonstrar.

Por isso criaram a moda de som alto,

Que é pra poderem melhor disfarçar.

Chegam em casa, já ligam no asfalto

Pra dar o tempo do urso se mandar.


       Corno bebe pra esquecer problema,

       O som alto é para não ouvir conselho.

       No dia seguinte, só ressaca e dilema,

       Já não consegue olhar-se no espelho.

       Segue essa vida execrável e de pena

       Até que o diabo escute o seu apelo.


O teu som alto, tua cerveja quente,

As tuas músicas ruins de se vomitar,

Só me resulta numa certeza latente:

Tu és um babaca que não tem par!

E só uma coisa me deixa contente:

Quando a polícia vem te silenciar.


      Ou quando alguém cresce o olhar

      E na surdina, tenta roubar teu som.

      Aí eu confesso que poderia festejar,

      Algo que eu acharia pra lá de bom.

      Não tenho nada melhor pra desejar;

      Em gente como ti, não passo batom.


Pois a cada aparelho de som furtado,

Quebrado, fora de circulação ou fodido,

Cada aparelho porventura inutilizado,

Ou cada aparelho de som apreendido, 

É a paz e o silêncio, enfim, confirmados

E mais um vizinho de bem agradecido.


     Até quando essa situação vai durar,

     O que as leis criarão em nosso favor?

     Será possível termos que denunciar,

     Nosso direito ter que sempre se impor?

     Atire a primeira pedra quem discordar,

     Ou vá se juntar aos porcos, caso for. 



Chamam-me de invejoso pelo que digo?

Memorizem essa frase e repitam comigo:

QUEM SENTE INVEJA DE POBRE É MENDIGO!  



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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

JOÃO BASTO, UM QUEIMADENSE VISIONÁRIO - Perfil Biográfico




















         
          Algumas observações e correções acerca da publicação:

- Ao longo deste perfil eu menciono o nome de Teresinha Dantas escrito com a letra Z. Somente corrigindo, o seu nome oficial é com S;

 - No início da página 03, na foto tirada na Pedra de Santo Antônio, em Fagundes PB, João Basto é o único de chapéu na foto e parece estar segurando a camisa;

- No início da página 08, corrigindo a legenda, até pra não correr o risco de ambiguidade: "o imóvel vizinho à antiga Decorama (antiga Decorama esta que hoje pertence a Rogerinho Duarte);

- No final da página 09, somente corrigindo a legenda: "...entrando numa padaria da cidade. No mesmo estabelecimento comercial que um dia lhe pertenceu";

-  Na página 17, João Basto encontra-se à beira de um pequeno lago em Brasília e não de uma piscina, como foi dito.


domingo, 25 de janeiro de 2026

CORDEL DESEMPREGADO AOS 40 - DO PESSOAL PARA A POESIA - ampliado


 

QUEIMADAS PB, MAIO/2019

 

Na ociosidade em que eu vivo

Há muito tempo sem trabalhar,

Sem ter uma rotina, um emprego

No qual eu possa me ocupar,

Pergunto-me: O que faço aqui?

Muitas coisas me fazem refletir

Sobre a vida que vivo a levar.

 

          Uma vida vazia, sem objetivos,

          Sem algo que faça a diferença.

          Onde nada faço, nado construo,

          Apenas uma cabeça que pensa.

          Mas, como diz o meu velho pai,

          “Todo penso é torto”, e logo vai

          Aumentando minha descrença.

 

Sempre pela manhã, ao acordar

Vou consultar a minha agenda.

Sem nada pra fazer, o dia inteiro,

Uma despreocupação tremenda.

Limpo um quintal, varro calçada,

Não fico à toa, sem fazer nada,

Embora isso não resulte renda.

 

          “Mente vazia é oficina do diabo”,

          Já diz um antigo ditado popular.

          Na falta de um emprego formal,

          Coloco a mente para funcionar.

          Faço “bicos”, escrevo poemas,

          Não resolve meus problemas,

          Mas ajuda o tempo a passar.

 

Muitos “amigos” até se afastam,

E em conversas de pé de muro

Começam a me malhar e difamar:

- Aquilo é um zé ruela, sem futuro!

Um bom amigo, pra muita gente

É o que traz o dinheiro na frente,

Fazendo outro se sentir seguro.

 

          Amizade sem qualquer interesse,

          Conservo algumas no coração.

          Que pensam no meu bem estar,

          Independente da minha condição.

          Referente à minha conta bancária,

          Essa continua sempre precária,

          Difícil de apresentar uma solução.

 

“Não tenho onde cair vivo”, seria

A forma correta de me expressar.

Desempregado, e sem dinheiro,

Dívida jamais poderia comportar.

Meu nome, há de continuar limpo,

Pois, cada dia mais eu pressinto

De que alguma coisa vai mudar.

 

          Do jeito que está, nunca poderei

          Algum dia nesta vida conseguir,

          Uma independência financeira,

          Algum patrimônio vir a adquirir.

          Não adianta só conhecimento,

          Tem que suar, “cair pra dentro”,

          Fazer acontecer, e repercutir.

 

De que adianta ter formações

Em nível técnico e até superior,

Se eu não consigo um trabalho

Em qualquer uma área que for?

Ainda sou “pau para toda obra”,

Apesar de que a saúde cobra,

Uma coluna que me causa dor.

 

          Tem gente que só fica esperando

          Alguma coisa acontecer e mudar.

          Mesmo a chuva que cai é preciso

          Ter um reservatório para guardar.

          Igual ao trigo que, para se colher,

          É necessário arar a terra e saber

          Que existe hora certa de semear.

 

Não são metáforas ou analogias

Que vão resolver o meu problema.

O fato é que o sistema trabalhista,

Em nível de Brasil, virou esquema.

Empresário explora, não é amador,

Empregado pra ele não tem valor,

Será sempre esse mesmo sistema.

 

          Não procuro cobrar do meu país,

          Inclusive, dos nossos governantes

          Pela crise que assola este Brasil,

          Onde o desemprego é constante.

          Nessa minha vida de comodismo,

          Falta-me certo empreendedorismo

          Que já tive num passado distante.

 

Pois me deixei levar pelo tempo

E brinquei mais do que eu devia.

Nos trabalhos por onde passei

Sempre lutei pela “mais valia”.

Patrão de mim, jamais gostou,

E assim, a minha vida passou,

Ficando a experiência em dia.

 

          Quanto mais conhecer direitos,

          Suas prerrogativas trabalhistas,

          É que o trabalhador brasileiro

          Descobre quanto há injustiças.

          Nem sempre carteira assinada

          Significa cumprir uma jornada;

          Fica mais simples ser diarista.

 

Salário reduzido e até mal pago,

Embora o trabalho seja integral.

Onde muitos entram na empresa

Já pensando em “colocar no pau”.

Por isso, continuo desempregado,

Mas não hei de ficar desesperado;

Pior do que está não fica, afinal.

 

          “Empregado, nem pra comer doce”,

          É mais um antigo ditado popular.

          Seja formal ou da informalidade,

          Trabalhador tem que se desdobrar.

          Pois todo empregador ou patrão,

          Só quer do funcionário dedicação,

          Não adianta portanto, vir bajular.

 

Com um bom histórico na carteira,

O bom profissional sempre rende.

Mas, após os quarenta, fica difícil,

Nenhum empregador compreende.

Problema igual que o jovem retrata,

Sem experiência, não se contrata;

E sem ter chance, nunca aprende.

 

          Essa é uma realidade incoerente,

          Sempre foi assim, não vai mudar.

          Requerer experiência dos jovens

          É ver a ordem das coisas se alterar.

          Viemos nessa vida para aprender,

          Ninguém nasce pronto a se saber,

          Sem antes ao menos, poder errar.

 

No Brasil é difícil ter esperanças.

Podemos esperar uma melhora?

O mais difícil é imaginar um país

Onde a própria lei não corrobora.

Complicado, isso tem que mudar.

O ideal seria a base transformar,

Investir na Educação, na Escola.

 

          O brasileiro já vive acostumado

          A aceitar tudo, sem nada a dizer.

          Poucos conhecem seus direitos,

          Na vida, no trabalho, até no lazer.

          E o desemprego é barra-pesada,

          Falta mão de obra especializada,

          Aquela onde é preciso conhecer.

 

Para se combater o desemprego,

Tem que investir em capacitação.

No Brasil, é a mão de obra barata

E o subemprego que vira opção.

Uma juventude que não estuda,

Ao buscar emprego, não se iluda,

O que vai conseguir é ser “peão”.

 

          Cada qual que resolva sua vida.

          Eu, por minha vez, me garanto.

          Consigo atuar em várias áreas,

          Ou trabalhar em qualquer canto.

          Não sou exigente, sou factual.

          Já que não sou um intelectual,

          Vou me virando, por enquanto.

 

A vida de um homem é trabalhar,

Ou encara esse fato ou desiste.

Viver como mendigo, vagabundo,

É uma vida realmente muito triste.

Diz o ditado, “O trabalho enobrece”,

Mas também adoece, enlouquece...

Nesse mundo onde de tudo existe.

 

          Sem ter um compromisso na vida,

          Um homem nunca há de avançar.

          Só uma preocupação, uma dívida

          E até uma mulher pra lhe chatear

          É que transforma o seu destino.

          Nunca vai passar de um menino

         Se não tiver com que se ocupar.