Capone e Paulo Seixas
quinta-feira, 7 de maio de 2026
MUSICALIZANDO NUM PAPO RAULSEIXISTA...
quarta-feira, 15 de abril de 2026
JOÃO BASTO, UM QUEIMADENSE VISIONÁRIO - Biografia em Cordel
QUEIMADAS, JANEIRO/2026
Que
venha a inspiração
Pra
narrar com fino trato
A
história de um homem
Que
merece bom relato.
O
enredo deste folheto
Terá
muito valor e êxito
Ao
falar de João Basto.
João Ferreira Dantas,
Assim ele foi registrado.
Nasceu em julho de 41
Lá do século passado.
João Basto, já crescido,
Assim ficou conhecido,
Por todos era chamado.
Cresceu no sitio Lutador,
Município de Queimadas.
Um homem predestinado
A vencer sua caminhada.
E assim, aquele menino,
Seguiu com fé seu destino,
Encarando longa estrada.
Um
queimadense nato,
Honesto
e trabalhador,
Que
dedicou toda vida
À
sua família, com amor.
Batalhou
a vida inteira,
E
nunca foi brincadeira
As lutas que ele travou.
Dois nomes importantes
Entre referências tantas:
Maria Pereira da Silva
E José Ferreira Dantas.
Foram seus progenitores,
Ambos eram agricultores,
Viviam da terra, de plantas.
Sua mãe fora costureira,
Tinha posses sua família.
O pai, humilde agricultor,
Sequer tinha para mobília.
Mesmo assim, se casaram,
Pois logo se apaixonaram
E seguiram a mesma trilha.
Aos 9 anos de idade uma perda
Que marcou significativamente
O seu jeito de encarar o mundo:
O falecimento tão precocemente
De Dona Maria, a sua genitora.
Deixando-o triste, sem protetora,
Não superando tão facilmente.
Porém, uma força
gigantesca
E enorme vontade de
vencer,
Determinou o menino
João
Que não se deixava
abater.
O tempo passou,
ficou maior,
Viver na cidade
achou melhor,
Embora não pudesse
esquecer.
Seu pai casou-se novamente,
Teve quatro filhos dessa união.
Oito do primeiro casamento,
Concebia filhos de montão.
Estão vivos três
do primeiro
E todos quatro do derradeiro;
João Basto teve muito irmão.
João casou com Lidinalva
E teve quatro “jóias raras”,
Suas filhas, seus tesouros,
Suas aquisições mais caras.
Veio a primogênita Marília
Depois as outras três filhas,
Teresinha, Silvana e Jussara.
Era grande o seu orgulho
Ver suas filhas formadas.
Pensava assim, no futuro,
Vê-las bem encaminhadas.
Lidinalva também estudou,
Fez faculdade, se destacou
Professora em Queimadas.
Um homem muito simples,
João Basto não tinha vaidade,
Nasceu e viveu para a lida,
Fosse no campo, na cidade.
Visionário, enxergava além,
Pois soube como ninguém
Aproveitar oportunidades.
Ao vender alguns novilhos
Que tinha no sítio Lutador,
Onde criava e fazia roçados,
Dedicando-se com fervor,
Houve quem o criticasse,
Também o desacreditasse
Na sua escolha sem valor.
“Como tu faz um negócio
Desse jeito, sem
pensar?!
Se mudar para a
cidade,
Um terreno ruim
comprar...”
De pronto ele
respondeu:
“Queimadas muito
cresceu,
Vai desenvolver sem
parar.”
“Farei ali um loteamento,
Vou ganhar muito dinheiro.”
Isso foi no ano de 1976,
Nessa visão, foi o primeiro.
Foram certos seus planos,
E hoje, depois de 50 anos,
Tudo valorizou por inteiro.
Era necessário ser ousado
Pra tomar tamanha decisão,
Trocar o certo pelo duvidoso,
Trilhando uma nova direção.
Com a cidade em crescimento
Apostar no desenvolvimento,
Essa era a certeza de João.
Desde cedo o município
Anunciava tal crescimento,
E João Basto, muito esperto,
Criou novos loteamentos.
Da Pedra do Sino à Vila,
Adquiriu terrenos em fila,
Dentro do seu orçamento.
Com pouca escolaridade,
Porém, tinha inteligência,
Onde de fato a perspicácia,
A ousadia e a competência
Eram intrínsecas do seu ser.
Alguém que sabia aprender,
Somando vasta experiência.
De criança até a juventude,
João trabalhou em roçado.
Por não haver outra opção,
Deixara os estudos de lado.
Problema de coluna adquiriu,
Sequelas do trabalho
infantil
Que o deixavam incapacitado.
Eram crises que surgiam
Em épocas
determinadas,
Impossibilitando-o
de ter
Uma mobilidade
adequada.
Mas um bom
medicamento
Indicado para o
momento
Combatia a dor causada.
Após o falecimento do pai,
Passou a vender miudezas.
Artigos de higiene pessoal,
Perfumaria, ou pra limpeza...
Como mascates de outrora,
Que viajavam estrada afora,
Sempre levando gentileza.
Vendendo de porta em porta,
Tinham certo a sua clientela.
Quase nunca vendiam à vista,
Tudo era vendido em parcela.
Transportavam em animais
As mercadorias e tudo mais,
Tal João Basto um dia fizera.
Os rendimentos das vendas,
Investia comprando animais,
Que eram criados nas terras,
Herança deixada por seus pais.
Também arrendava cercados,
Currais de gado “alugados”,
E tinha outros ganhos mais.
Investiu ainda nessa época
Numa mercearia, sem temor,
Na localidade onde nasceu,
O bom e velho sítio Lutador.
Não demorou e mais tarde
Resolveu mudar pra cidade,
Onde seguiu empreendedor.
Sucessivas terras comprou
Com a finalidade de lotear.
Seguia-se a década de 1970,
Queimadas se via despontar.
Nessa época adquiriu o local
Onde fica o Hospital Regional,
Hoje um bom lugar pra morar.
Antes de lotear esse
espaço,
Área nobre de
Queimadas,
João Basto ainda
promoveu
Algumas tantas
vaquejadas.
Plantou também seus
roçados,
Talvez até mexesse
com gado...
O homem não parava
pra nada.
Inclusive, saía muito cedo,
Às vezes, sem tomar café.
Voltava em casa só à noite,
Apesar da queixa da mulher.
Trabalhava com foco e atitude
Comprometendo a sua saúde,
Por vezes, o tirando de pé.
João Basto nasceu pra labuta,
Não temia o trabalho braçal.
Sabia colocar a mão na massa,
Preguiça pra ele era anormal.
Foi comerciante e agricultor,
Tratorista e até construtor;
Era um homem fenomenal.
Entre as décadas de 70 e 80,
Três ônibus João adquiriu.
A linha Lutador/Queimadas
Durante algum tempo existiu.
Depois, vendeu-os à Condor,
Ou foi dela que os comprou?
Seja como for, assim fluiu.
Lá na Barra de João Leite,
Durante a década de 1980,
Ele morou por alguns meses,
Onde comprara uma fazenda.
De lá, se fixou em Queimadas
Com uma mercearia abastada,
Negócio esse que se sustenta.
Entre coisas que mais detestava,
Os modismos e extravagâncias.
Podia ser um
pouco antiquado,
Mas isso não
tinha importância.
Para ele, só na honra
se acredita,
Quem não cumpria
a palavra dita
Não era digno de
sua confiança.
Gostava de assistir a noticiário,
Era antenado no que acontecia.
Decidiu entrar na política local
Sem imaginar que se prejudicaria
Com as artimanhas do opositor.
Duas vezes
candidato a vereador,
Viu que aquilo não
lhe renderia.
João Ferreira Dantas faleceu
Em 20 de novembro de 2009,
Vítima de um câncer maligno
Quando até a morte se comove.
E assim, o guerreiro descansou,
Deixando a saudade que ficou,
Algo que nem o tempo resolve.
Virou, inclusive, nome de rua
Numa homenagem especial.
É a Rua João Ferreira Dantas,
Queimadas, logradouro atual.
No loteamento Novo Horizonte,
É só pedir que alguém aponte
E mostre assim, o exato local.
Por essas e outras histórias
João Basto aqui é lembrado,
Trazendo às novas gerações
Fatos que ficaram no passado.
Parte da Vila, e até o Ernestão,
Iniciaram-se de um lote então
Que João já havia começado.
À família, parentes e amigos,
Fica esta singela mensagem
A João Basto, cuja história,
Queimadas faz homenagem.
Um homem sábio, de visão,
Que fez da vida uma missão
Com entusiasmo e coragem.
segunda-feira, 30 de março de 2026
RAUL SEIXAS PREVIU A PRÓPRIA MORTE E NINGUÉM ACREDITOU
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| Raul Seixas no Teatro Pixinguinha, São Paulo, 1981 |
Quando se fala na morte de Raul Seixas, a maioria das pessoas pensa apenas no no dia 21 de agosto de 1989. Mas a verdade é que o fim começou muito antes disso. Não foi repentino, não foi um acidente isolado e definitivamente não foi apenas consequência de excessos. Os últimos anos de Raul Seixas foram marcados por um conflito silencioso.
Um homem que ainda tinha lucidez
criativa, mas um corpo que já não acompanhava. Um artista que via tudo com
clareza, mas já não conseguia lutar contra si mesmo. No final da década de 80,
Raul já não era mais visto como a figura mítica dos anos 70. Para parte dos
media, era tratado como um artista decadente.
Para a indústria, um problema difícil
de lidar e para o público, uma incógnita. Mas longe dos palcos existia um Raul
que poucos conheciam, mais introspectivo, mais cansado e, acima de tudo,
consciente. Raul sabia que o seu corpo estava a falhar. O diabetes
diagnosticado anos antes avançava de forma agressiva. As complicações se
acumulavam, problemas de visão, fadiga constante, internamentos frequentes.
Mesmo assim, recusava-se a abandonar a
música. Não por teimosia, mas porque a música era a única coisa que ainda o
mantinha de pé. Amigos próximos relatam que Raul falava abertamente sobre a
morte, não com medo, mas com ironia, como se já soubesse que o tempo estava
acabando. Em entrevistas, as suas respostas começaram a mudar.
Menos provocação gratuita, mais frases
longas, mais silêncios. Era como se ele estivesse organizando os próprios
pensamentos antes de partir. Ao mesmo tempo, o mercado exigia mais espetáculos,
exposições, compromissos. Mesmo debilitado, Raul aceitava, não porque queria,
mas porque precisava. Financeiramente, a situação era frágil, royalties mal
geridos, contratos antigos e uma indústria que já não protegia os seus
artistas.
O Raul trabalhava mesmo quando o corpo
pedia pausa e isso cobrava um preço. Quem esteve com ele nesta fase relata um
contraste perturbador. Havia momentos de lucidez extrema, reflexões profundas,
ideias claras e logo de seguida lapsos físicos graves, quedas, desmaios, crises
de saúde. O mito começava a estalar. Mas Raul ainda tinha algo que ninguém
conseguia tirar dele. Consciência.
Ele sabia exatamente o que estava
acontecendo. Sabia que estava a se aproximando-se do limite e talvez por isso,
os seus últimos trabalhos soem tão confessionais como se cada música fosse uma
despedida disfarçada. Mas o que quase ninguém se apercebe é que o fim de Raul
Seixas não foi silencioso. Foi acompanhado de avisos, de sinais claros e de um
último período onde tudo começou a desmoronar de forma irreversível.
E é exatamente sobre este período que
a próxima parte revela, porque antes da morte física, Raul enfrentou um colapso
muito mais profundo. Um colapso que aconteceu longe dos holofotes e que mudou
para sempre a forma como via a própria existência. Nos anos finais da vida,
Raul Seixas passou a viver em constante estado de alerta.
O corpo já não respondia como antes. O
diabetes, mal controlado durante longos períodos, começou a cobrar um preço
elevado. As crises tornaram-se frequentes. Visão turva, dores intensas,
fraqueza repentina. Em alguns momentos, Raul mal conseguia ficar em pé. Mesmo
assim, continuava aceitando apresentações. Não era vaidade, era sobrevivência.
Cada espetáculo representava uma
tentativa de manter a A dignidade, a independência e, principalmente, o vínculo
com o público. Mas o palco já não era um lugar seguro. Em algumas
apresentações, Raul necessitou de ser amparado por músicos e produtores.
Noutras, mal conseguia terminar uma música. A imprensa começou a explorar essas
imagens.
Fotos e vídeos circulavam mostrando um
artista fragilizado. Para muitos, aquilo era decadência. Para quem estava perto
era resistência. Raul sabia que estava a ser observado e isso incomodava-o
profundamente. Ele não queria piedade nem pena. queria ser ouvido. Em
entrevistas deste período, as suas palavras transportavam um tom diferente,
menos provocação, mais reflexão.
O Raul falava sobre o tempo, sobre os
limites, sobre escolhas e, curiosamente, falava muito sobre a lucidez. Ele
repetia que preferia ter clareza mental mesmo com o corpo falhando, do que
viver anestesiado. Essa escolha, porém, não vinha sem consequências. Os médicos
alertavam para a necessidade de repouso, alterações de rotina, tratamentos
rigorosos.
Mas Raul resistia não por negação, mas
por convicção. Para ele, a vida sem criação não fazia sentido. Nos bastidores,
amigos relatam discussões constantes. Havia quem lhe pedisse que parasse, que
se cuidasse, que descansasse. Raul ouvia, mas raramente obedecia. Em muitos
momentos, parecia estar negociando com o seu próprio fim, empurrando limites,
testando o corpo, como se quisesse provar que ainda estava no controle.
Mas a verdade é que o controlo já
estava a escapar. As hospitalizações se tornaram mais frequentes. Hospitais
passaram a fazer parte da rotina e cada saída era acompanhada de menos energia
do que a anterior. Mesmo assim, Raul continuava a escrever, anotava ideias,
frases soltas, reflexões profundas. Algumas dessas notas nunca chegaram a
tornarem-se músicas.
Outras ganharam forma e hoje soam
quase como despedidas. Durante este período, Raul passou a falar abertamente
sobre o medo de perder a autonomia. Mais do que a morte, o que o assustava era
deixar de ser ele próprio, ser controlado, ser silenciado, ser reduzido. Esse
medo moldou as suas últimas escolhas e, sem se aperceber, empurrou-o para
situações cada vez mais extremas, situações que em pouco tempo iriam
desencadear o momento mais delicado de toda a sua trajetória.
Ponto de ruptura que não envolveu
apenas saúde, mas a solidão, o abandono e as decisões que ecoariam até ao
último dia. À medida que o corpo de Raul Seixas enfraquecia, algo ainda mais
profundo começava a desfazer, as relações. Amigos antigos foram-se afastando,
alguns por cansaço, outros por não saberem lidar com a fragilidade.
A indústria musical, que antes
disputava a sua presença, passou a tratar o Raul com frieza. Convites
diminuíram, os projetos foram arquivados, o mito ainda existia, mas o homem
não. Raul começou a passar longos períodos sozinho, horas, dias, em quartos
simples com poucas visitas. A solidão não era apenas física, era emocional.
Mesmo quando estava cercado, Raul
parecia distante, pensativo, calado. Quem convivia com ele relata que o Raul
falava pouco, mas quando falava ia fundo. Reflexões sobre o fracasso, sobre o
legado, sobre o que restaria quando tudo acabasse. Não se via como um génio incompreendido.
Via-se como alguém que pagou um preço elevado por nunca se ter adaptado.
E esse preço estava a ser cobrado no
fim. A saúde continuava a se deteriorando. As limitações físicas se tornaram
evidentes. Caminhar era difícil, ver pior ainda. E isso afetava diretamente a
sua autoestima. Raul, que sempre utilizou a imagem e a presença como parte do
discurso artístico, sentia-se agora exposto, frágil.
Havia dias em que ele simplesmente não
queria sair da cama, não por preguiça, mas por exaustão. O peso da própria
história começava a esmagá-lo. Em conversas íntimas, Raul confessava sentir que
estava a ser esquecido, não pelo público em geral, mas por quem realmente
importava, pelas pessoas que estiveram ao seu lado quando tudo começou.
Esta sensação de abandono
intensificou-se nos meses finais. Raul começou a evitar contatos, recusava
visitas, ignorava os telefonemas, era como se estivesse a preparar para
desaparecer. Mesmo assim, continuava pensando na própria obra. Ele sabia que a
sua música sobreviveria, mas não tinha certeza se a sua história seria contada
corretamente.
Isso incomodava-o profundamente. O
Raul não queria ser recordado apenas como um excessivo ou como um caso trágico.
Queria ser compreendido e talvez por isso, nas suas últimos dias tenha falado
mais sobre consciência do que sobre a fama, sobre liberdade interior mais do
que o sucesso. Esta fase de isolamento não foi um acidente, foi uma resposta,
uma tentativa de proteger o que ainda restava de si mesmo.
Mas o isolamento também trouxe consequências
graves. Sem apoio constante, sem acompanhamento adequado, Raul ficou vulnerável
e bastou um último empurrão para que tudo desmoronasse de vez. O que levou Raul
Seixas até ao limite final não foi um único acontecimento, foi uma sequência,
pequenas negligências, decisões adiadas. Alertas ignorados.
Nos meses que antecederam a sua morte,
o estado de saúde de Raul tornou-se crítico. As crises diabéticas
intensificaram-se. Havia dias em que mal se conseguia alimentar. O controle da
glicose era irregular e o corpo, já exausto, já não conseguia compensar. Mesmo
assim, Raul continuava resistindo à ideia de uma rotina médica rígida.
Os hospitais incomodavam-no, regras
sufocavam-no. Para alguém que passou a vida lutando contra os controlos
externos, aceitar limites impostos pelo corpo era quase insuportável. Em alguns
momentos, parecia aceitar a situação. Noutros, simplesmente ignorava. Esta
oscilação criava um cenário perigoso. Amigos próximos tentaram intervir.
Houve conversas duras, pedidos
sinceros. Mas Raul estava cansado de ser conduzido. Queria decidir como viver
os próprios dias. Esse desejo de autonomia que sempre definiu a sua
personalidade tornava-se agora uma faca de dois gumes. A solidão já presente se
aprofundou. Raul passou a recusar ajuda com maior frequência.
Havia um sentimento claro de
encerramento, como se ele soubesse que o tempo restante era curto. Em algumas
ocasiões, comentou de forma indireta que já tinha feito tudo o que precisava de
fazer, não como uma despedida formal, mas como uma constatação. O ambiente à
sua volta refletia esse estado. Poucos objetos, pouca movimentação.
Silêncio. Raul vivia dias de
introspecção profunda. ainda escrevia, ainda pensava, mas já não planeava o
futuro. Era como se estivesse a viver em suspensão. E depois veio o episódio
que selou o destino. Uma crise grave, uma falha orgânica que o organismo não
conseguiu mais conter. Não houve espetáculo, não houve drama público, foi
silencioso.
Raul foi encontrado em casa sozinho. O
coração tinha parado. A notícia se espalhou-se rapidamente e com ela uma onda
de choque. O país perdeu um dos seus maiores artistas, mas quem conhecia de
perto sabia. Aquilo não foi inesperado. Foi o fim de um processo longo, um
processo marcado pela resistência, orgulho e escolhas difíceis.
Mas faltava ainda algo essencial, a
forma como Raul seria recordado, porque a a morte encerrou o corpo, mas não a
história. E o que aconteceu depois mudou para sempre a percepção sobre ele. A A
morte de Raul Seixas não encerrou apenas uma vida. Ela abriu um vazio, um
silêncio estranho para alguém que sempre fez barulho contra tudo o que tentava
enquadrá-lo.
Quando a notícia se alastrou, o impacto
foi imediato. Rádios interromperam programações, jornais fizeram manchetes, mas
ao mesmo tempo muitas perguntas ficaram no ar. Houve homenagens, discursos
emotivos e também julgamentos. Parte da comunicação social resumiu a sua
história a excessos e autodestruição, como se tudo pudesse ser explicado de
forma simples.
Mas quem acompanhou Raul de perto
sabia que esta versão era incompleta. O Raul não foi apenas um artista que se
perdeu, foi alguém que pagou um preço elevado por viver de acordo com as próprias
ideias. Sua obra, Longe de Morrer com ele, ganhou nova força. As músicas
passaram a ser ouvidas sob outra perspectiva.
Letras que antes pareciam irónicas
soavam agora como avisos. Reflexões sobre a liberdade, controlo e existência
tornaram-se ainda mais atuais. Com o passar do tempo, Raul deixou de ser apenas
um ícone musical. Tornou-se um símbolo da recusa em adaptar-se, da busca
incessante pela autonomia. da luta contra sistemas invisíveis.
Sua morte trouxe à tona debates
importantes sobre a saúde mental, sobre o abandono de artistas, sobre o custo
do génio num mercado que consome e descarta. Hoje, décadas depois, Raul Seixas
continua presente nas playlists, em citações, em conversas, não como alguém
perfeito, mas como alguém verdadeiro. E talvez seja exatamente isso que o
mantém vivo.
O Raul nunca quis ser um exemplo, nunca
quis ser santo, quis ser livre, mesmo quando isso significava andar à beira do
abismo. A história dos seus últimos dias não deve ser vista apenas como uma
tragédia, mas como um alerta sobre limites, sobre as escolhas e sobre a
importância de compreender o ser humano por detrás do mito. Porque enquanto
existirem pessoas que se sentem sufocadas, questionadas ou fora do lugar, Raul
Seixas continuará a fazer sentido e a sua voz, mesmo em silêncio, seguirá
ecoando.
Janeiro
19, 2026
Fonte:
https://news2.goldnews24h.com/raul-seixas-previu-a-propria-morte-e-ninguem-acreditou-admin3/





