domingo, 18 de setembro de 2022

COM AMIZADE E CARINHO, UM CORDEL PARA VITINHO

 
                                      ITABAIANA PB, AGOSTO/2022

 

Pensei escrever um cordel

E fazer uma homenagem

A um ser humano incrível,

Dotado de muita coragem.

Esse menino que vi nascer,

Que Deus nos faz perceber,

Trazendo a sua mensagem.

 

Essa imagem de limitação,

Que torna Vitinho especial,

Trata-se de uma alteração

Em um nível cromossomial,

Que não o faz tão diferente,

Pois convive perfeitamente

Com a Síndrome de Down.

 

Esse sintoma é compreendido

Dentro de um conceito geral

Como uma alteração genética, 

Não escolhendo classe social.

É só um cromossomo a mais

Gerando seres tão especiais

E todo o seu lado emocional.

 

        Ser diferente é tão normal,

        Nisso Vitinho não fica atrás.

        Possui uma saúde de ferro,

        Nada perturba esse rapaz.

        Havendo estímulo e carinho,

        Ele aprende do seu jeitinho,

        Mostrando do que é capaz.

 

É que Síndrome de Down

Nunca foi o maior defeito,

Sendo a pior das barreiras

O descaso e o preconceito.

Estes, sim, criam restrições,

Atrapalhando as relações,

Comprometendo direitos.

 

        Direitos e garantias, de fato,

        Não podem ser ignorados.

        A inclusão, a acessibilidade,

        A duras penas conquistados.

        Sem conversa mais comprida,

        Que a lei possa ser exercida,

        Por todo lugar alcançado.


Quem tem filho com Down

Define bem o que é o amor.

Apesar de alguma diferença,

Do que a deficiência impor,

A criança vai corresponder.

Deus dá afeto e faz crescer

O frio conforme o cobertor.

 

Vitinho é um ser amável

Que sabe se comunicar.

É amigo de todo mundo

E capaz de sociabilizar

Suas ideias, sentimentos,

Sem fazer julgamentos

E sem jamais reclamar.

 

Queimadas já o conhece

Nas suas apresentações,

Tocando pelas fanfarras,

Contagiando os corações.

Vitinho não tem limites,

Pra quem duvida, acredite:

Ele supera as limitações.

 

        Gosta de música, bateria,

        Sabe fazer uma percussão.

        No futebol é o Flamengo

        O seu clube do coração.

        Por onde passa, contagia,

        Com seu abraço, alegria,

        José Victor é pura emoção.

 

É o xodó entre os irmãos

E muito amado pelos pais.

Em casa é aceito e tratado

Seguindo padrões normais.

Sem regalias, sem ressalva,

Pois Estefâneo e Marinalva

Educam filhos sendo iguais.

 

        Por fim, só quero desejar

        Saúde, paz e felicidades

        Ao nosso amigo Vitinho,

        Dotado de sensibilidade.

        Amoroso e cheio de vida,

        Tem uma família querida

        E que o ama de verdade.


    José Víctor nasceu no dia 17 de maio de 1995.

Tem atualmente 27 anos de idade.


terça-feira, 23 de agosto de 2022

COISAS DE PORTUGUÊS...

A palavra "coisa" é um bombril do idioma. Tem mil e uma utilidades.  É aquele tipo de termo-muleta ao qual a gente recorre sempre que nos faltam palavras para exprimir uma ideia.

"Coisas" do português.

Gramaticalmente, "coisa" pode ser substantivo, adjetivo, advérbio. Também pode ser verbo: o Houaiss registra a forma "coisificar". E no Nordeste há "coisar": Ô, seu "coisinha", você já "coisou" aquela coisa que eu mandei você "coisar"?

Na Paraíba e em Pernambuco, "coisa" também é cigarro de maconha.

Em Olinda, o bloco carnavalesco Segura a Coisa tem um baseado como símbolo em seu estandarte. Alceu Valença canta: Segura a "coisa" com muito cuidado / Que eu chego já."

Já em Minas Gerais , todas as coisas são chamadas de trem (menos o trem, que lá é chamado de "coisa"). A mãe está com a filha na estação, o trem se aproxima e ela diz: "Minha filha, pega os trens que lá vem a "coisa"!.

E no Rio de Janeiro? Olha que "coisa" mais linda, mais cheia de graça...

A garota de Ipanema era coisa de fechar o trânsito! Mas se ela voltar, se ela voltar, que "coisa" linda, que "coisa" louca.  Coisas de Jobim e de Vinicius, que sabiam das coisas.

Coisa não tem sexo: pode ser masculino ou feminino.

Coisa-ruim é o capeta. Coisa boa é a Juliana Paes. Nunca vi coisa assim!

Coisa também não tem tamanho.

Na boca dos exagerados, "coisa nenhuma" vira um monte de coisas...

Mas a "coisa" tem história mesmo é na MPB.  No II Festival da Música Popular Brasileira, em 1966, a coisa estava na letra das duas vencedoras: Disparada, de Geraldo Vandré: Prepare seu coração pras "coisas" que eu vou contar..., e A Banda, de Chico Buarque: pra ver a banda passar, cantando "coisas" de amor... Naquele ano do festival, no entanto, a coisa tava preta (ou melhor, verde-oliva). E a turma da Jovem Guarda não tava nem aí com as coisas: “coisa" linda, "coisa" que eu adoro! 

Para Maria Bethânia, o diminutivo de coisa é uma questão de quantidade, afinal, são tantas "coisinhas" miúdas.  E esse papo já tá qualquer "coisa". Já qualquer "coisa" doida dentro mexe...

Essa coisa doida é um trecho da música "Qualquer Coisa", de Caetano, que também canta: alguma "coisa" está fora da ordem! e o famoso hino a São Paulo: "alguma coisa acontece no meu coração"!

Por essas e por outras, é preciso colocar cada coisa no devido lugar.

Uma coisa de cada vez, é claro, afinal, uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa.  E tal e coisa, e coisa e tal.

Um cara cheio de coisas é o indivíduo chato, pleno de não-me-toques.

Já uma cara cheio das coisas, vive dando risada. Gente fina é outra coisa.

Para o pobre, a coisa está sempre feia: o salário-mínimo não dá pra coisa nenhuma.

A coisa pública não funciona no Brasil. Político, quando está na oposição, é uma coisa, mas, quando assume o poder, a coisa muda de figura.

Quando elege seu candidato de confiança, o eleitor pensa: Agora a "coisa" vai... Coisa nenhuma! A coisa fica na mesma. Uma coisa é falar; outra é fazer. Coisa feia! O eleitor já está cheio dessas coisas!

Se as pessoas foram feitas para serem amadas, e as coisas, para serem usadas, por que então nós amamos tanto as coisas e usamos tanto as pessoas? Bote uma coisa na cabeça: as melhores coisas da vida não são coisas. Há coisas que o dinheiro não compra: paz, saúde, alegria e outras cositas más.

Mas, deixemos de "coisa", cuidemos da vida, senão chega a morte, ou "coisa" parecida... Por isso, faça a coisa certa e não esqueça o grande mandamento:

"AMARÁS A DEUS SOBRE TODAS AS "COISAS".

Entendeu o espírito da coisa?

 

Francicarlos Diniz

(Jornalista e escritor, pós-graduado em Comunicação pela USP)


terça-feira, 28 de junho de 2022

RAUL SEIXAS - Da Bahia para a posteridade - Poesia de Cordel

Olá amigos! Em especial, a galera raulseixista.

Em homenagem ao seu 77º ano de nascimento, apresento aqui um cordel biográfico, um material autoral e completamente inédito, onde abordo um pouco a vida e a arte musical de Raul Santos Seixas. Espero que gostem dessa minha produção e pesquisa sobre o eterno Maluco Beleza. Confiram a publicação e teçam comentários. 

 

CAMPINA GRANDE PB, DEZEMBRO/2021

 

Alguns amigos me perguntam,

Outros até fazem queixas,

Só porque eu nunca escrevi

Um cordel sobre Raul Seixas.

E eu quase sempre digo:

É a responsabilidade, amigo,

Que me impede e nunca deixa.

 

No entanto, hoje eu resolvi

Colocar a cabeça pra pensar.

Versejar sobre Raul, acredito,

É algo que eu posso realizar.

Afinal, são trinta anos de fã,

Entrando pela noite e manhã,

Muita coisa poderei rimar.

 

Farei, portanto, uma cronologia

Onde precisarei de um norte

Pra falar de seu nascimento,

De sua vida, até a morte.

Da ascensão ao fracasso,

Assunto para tanto eu acho.

Desejem-me, pois, boa sorte!

 

Raul Santos Seixas veio à luz,

Quis Deus, em solo nordestino,

Pra essa terra poder representar

E fazer parte de seu destino.

E, assim, aquela criança nascia,

28 de junho de 1945, na Bahia,

Um alegre e saudável menino.

 

Foi o ano da bomba atômica,

Algo que Raul sempre lembrava.

Nascido na capital, Salvador,

Em uma família bem amparada,

Sendo os seus pais verdadeiros

Raul Varella Seixas, engenheiro,

E Maria Eugênia, dona de casa.

 

O seu irmão mais novo, Plínio,

Era o companheiro de aventuras.

Quando crianças, aprontavam todas,

Fazendo todo tipo de diabruras.

Raul desenhava histórias criadas,

Ficando com parte da mesada

Do seu irmãozinho caçula.

 

Cresceu próximo um consulado,

Seus amigos eram americanos.

Ficou fluente em língua inglesa,

O que servira pros seus planos.

Ágil, ouvia de tudo, lia bastante,

Devorava os livros na estante,

Evoluindo em poucos anos.

 

Menino precoce, aprendia rápido

O que outros diferiam bem mais,

Absorvendo culturas e línguas,

Tudo sozinho, sem apoio dos pais.

A escola não atraía sua atenção,

E após ganhar seu primeiro violão,

Desde cedo, já seguia seus ideais.

 

Fã de Elvis de carteirinha,

Até fã clube já havia fundado

Com o amigo Waldir Serrão,

Sempre presente do seu lado.

Mascava chiclete, erguia a gola,

A essa altura, falhava na escola,

Tendo parcialmente abandonado.

 

Raul Seixas, também Raulzito,

Apelido da infância e juventude,

Cabulava aulas para ouvir Rock;

Era uma rebeldia essa sua atitude.

Adeus, faculdade! Queria ser cantor,

Final dos anos 1950, em Salvador,

Época de pudor e de virtude.

 

Além de música, amava cinema,

Aos clássicos da época assistia.

E lá no Cantinho da Música,

Uma lojinha de discos que havia,

Raulzito passava tardes inteiras

Ouvindo a cultura estrangeira;

Do mundo quase se esquecia.

 

Entre os artistas que ele ouvia,

Elvis Plesley, o seu ídolo maior.

Escutava ainda Jerry Lee Lewis,

Chuck Berry, Little Richard e não só.

Luiz Gonzaga, nem se comenta...

The Beatles, na década de 1960,

Inspirando-o a compor melhor.

 

As paixões na sua adolescência

Eram música, literatura e cinema.

Planejava ser um ator ou escritor.

Sonhar demais era o seu problema.

No Cine Roma, a muito filme assistia.

Segundo consta, até roteiro escrevia,

Para tudo, elaborava um esquema.

 

Arquivava depois esse material,

Jogava tudo dentro de um baú.

Não era assim, muito organizado,

Aquele jovem e adolescente Raul.

A música em seu sangue pulsava,

E o seu destino ali já traçava

A via crúcis que faria no sul.

 

Não demorou muito e Raulzito

Fundou o primeiro grupo musical.

Eram os Relâmpagos do Rock.

No início, um tanto instrumental.

Veio o The Panthers e depois já era

Chamado de Raulzito e os Panteras,

Banda que se tornou Profissional.

 

Em 1968 sai o primeiro disco.

Infelizmente, não vendeu nada.

Não acertaram no repertório,

Ficando a banda ultrapassada.

Separando agora o trigo do joio,

Foram tocar como banda de apoio.

Depois encerrando sua jornada.

 

Algumas músicas desse álbum

São verdadeiras obras primas.

Porém, não atraíram o mercado

Que era exigente e, ainda por cima,

Época da Jovem Guarda, Bossa Nova.

Suas canções não passaram na prova,

Brincadeiras, Menina de Amaralina...

 

Antes disso, ainda em 1964,

O The Panthers, não me engano,

Formado por Raulzito, Carleba,

Carlos Eládio Gil-Braz e Mariano,

Gravaram um compacto resumido.

As canções Nanny e Coração Partido

Jamais foram lançadas, por anos.

 

A convite de Jerry Adriani,

Raul volta pro Rio de Janeiro.

Tornou-se um produtor musical,

Produzindo discos de terceiros.

Artistas que alcançaram fama,

Odair José, Leno, Lilian, Diana...

Além de compor o tempo inteiro.

 

Dentre essas composições épicas,

Algumas vieram a se destacar.

Ainda Queima a Esperança, Diana,

Bela canção que ela veio a gravar.

Doce Doce Amor, de Jerry Adriani,

Se Ainda Existe Amor, não se engane,

Gravada pelo grande Balthazar.

 

Após dois anos na antiga CBS,

Aproveitou viagem do presidente

E com outros parceiros (reza a lenda)

Gravaram um disco independente.

Sociedade da Grã Ordem Kavernista,

Álbum icônico de quatro artistas,

Uma obra totalmente diferente.

 

Ligeiramente retirado das lojas,

Outro disco que não vendeu nada.

E assim Raulzito, Sergio Sampaio,

Edy Star e a Miriam Batucada,

Devido àquela grande ousadia,

Foram cantar em outra freguesia,

Deixando a passagem carimbada.

 

Em 1972, participou do VII FIC,

Festival Internacional da Canção.

Defendendo o seu “Let me Sing”,

Conquistou a terceira colocação.

Isso abriu as portas para o artista

Que enxergava, a perder de vista,

Alcançar a fama e a consagração.

 

Mas, deixando de lado o artista,

Falando de Raul como pessoa,

Ele fora um ser humano incrível,

Bom pai, amoroso, uma alma boa.

Às vezes, pra família ficava difícil

Ter que conviver com seus vícios,

Onde recomendações eram à toa.

 

Raul viveu com cinco mulheres,

Algumas amou sua vida inteira.

Teve Edith, Glória, Tânia, Ângela

E Lena, sua última companheira.

Um pai solitário de três filhas,

A Simone, a Scarlet e a Vivian,

De mães americanas e brasileira.

 

Nos anos de 1980, com frequência,

Raul dava entrada em hospitais.

Conforme o alcoolismo aumentava,

Seu corpo demonstrava os sinais.

Frágil e forte ao mesmo tempo,

Raul tinha pressa e um só intento:

Deixar no mundo as suas digitais.

 

Sonhava ser um grande escritor,

Um sonho que nunca foi realizado.

Escrever o dia todo, camisa aberta...

Igual seu conterrâneo, Jorge Amado.

Mas foi através da música que Raul

Transmitiu seu recado, de norte a sul,

Surtindo assim, melhor resultado.

 

Um misto de filósofo e profeta,

Raul Seixas era muito inteligente.

Um artista, de fato, muito antenado,

Enxergando sempre à sua frente.

No entanto, perdia-se em atitudes,

Descuidando até da própria saúde,

Assunto, para ele, pouco atraente.

 

E foi assim que o nosso herói,

Sempre fiel ao seu próprio apelo,

Em 1973, lançou Krig-há, Bandolo!

Após ter conhecido Paulo Coelho.

O disco que o lançou ao sucesso,

Ouro de Tolo lhe rendeu tal acesso,

Gravar pela Philips, grande selo.

 

Antes de lançar Krig-há, Bandolo!

Raul teve uma ideia interessante.

Organizou, então, uma passeata,

Divulgando seu hit mais marcante.

Pelo centro do Rio fez aglomeração

Tocando Ouro de Tolo no violão,

Causando impressão relevante.

 

Em parceria com Paulo Coelho,

Hoje em dia, um renomado escritor,

Raul lançou álbuns memoráveis

E na música nacional se consagrou.

Gita, disco (de ouro) que vendeu mais,

Novo Aeon, Há dez mil anos atrás...

E o dia em que a Terra parou.

 

Este último, com Cláudio Roberto,

Outro grande parceiro e compositor.

Além da faixa título, um sucesso,

Outra excelente canção se destacou:

Maluco Beleza, das mais conhecidas;

A música que transformou sua vida

E como a ser chamado ele passou.

 

Pregando a Sociedade Alternativa,

Foi torturado e expulso do Brasil.

Era apenas uma música, entretanto,

Não foi assim que a ditadura reagiu...

Em seus shows fazia manifestos,

Militares encararam o seu protesto

Uma subversão à pátria mãe gentil.

 

Ligado a temas místicos, esotéricos,

Raul e Paulo Coelho embarcaram

Nas ideias do bruxo Aleister Crowley,

Onde perderam mais que ganharam.

Foi aí que o nosso roqueiro baiano,

Por pouco, não entrou pelo cano

Com drogas que lhe apresentaram.

 

Uma época controlada pelo governo,

Onde ninguém dizia o que pensava.

Raul ousou manifestar-se contra,

A Sociedade Alternativa que falava.

A “Cidade das Estrelas”, a anarquia

Não passava de uma grande utopia,

Um sonho que nem Raul acreditava.

 

Ao final da década de 1970

Gravou discos que poucos cobram.

Em 1978, lançou Mata Virgem e,

1979, Por Quem Os Sinos Dobram.

Em 1980 deu a volta por cima,

Abre-te Sésamo, hits que animam

E nas prateleiras nunca sobram.

 

Um pioneiro do Rock Brasil,

Em vários gêneros ele gravou.

Cantou Tango, Bolero e Baladas,

Até Rock com Baião Raul misturou.

Revolucionou a música brasileira,

Embora achasse isso uma “besteira”,

Como em tantos shows declarou.

 

Raul compôs com vários parceiros,

Os principais, devo aqui destacar.

Paulo Coelho e Cláudio Roberto,

Os mais importantes a se lembrar.

Com cada mulher, acreditem ou não,

Raul tem uma ou outra composição;

Até de seu pai chegou a gravar.

 

Durante a década de 1980

Colecionou sucessos e fracassos,

Gravando alguns discos bacanas,

Cometendo um ou outro embaraço.

Sobretudo, em shows, fazia besteiras,

Sendo até confundido em Caieiras (SP)

Com um sósia invadindo seu espaço.

 

Agora imaginem essa situação:

Raul preso, indo pra delegacia,

Foi confundido com ele mesmo

Por um delegado que lhe batia.

Foi vexame, um constrangimento,

Por não andar com documentos,

Descobriu o que um artista valia.

 

Isso era um motivo suficiente

Pra ele mergulhar em depressão.

Bebia e se drogava sem limite

Até seu corpo chegar à exaustão.

Vivia decepcionado com a vida,

Refugiando-se na droga, na bebida,

Transformando seus dias em ilusão.

 

E, apesar de tantos problemas,

No tocante à sua vida particular,

Fica difícil separar Raul Seixas

Do artista que ele soube cultivar.

Compositor, instrumentista e poeta,

Um cantor de capacidade repleta,

Tinha realmente o que mostrar.

 

Registrando seus últimos álbuns

(após Abre-te Sésamo), o disco da vez

Foi intitulado apenas de Raul Seixas,

Um LP conhecido, gravado em 1983.

Disco de ouro com Carimbador Maluco,

“Música infantil” que lhe rendeu lucro;

Até um especial na Globo ele fez.

 

No ano seguinte, Metrô Linha 743

(lembrando somente disco oficial),

Um álbum todo em preto e branco,

Com algumas novidades, por sinal.

1985, 1986... não gravou disco algum,

1987, Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum!

Um retorno de forma magistral.

 

Esse álbum foi um grande sucesso,

Na língua nordestina, um “estouro”.

Trazendo o hit Cowboy fora da lei

Que lhe rendeu outro disco de ouro.

E, apesar de sua saúde debilitada,

Raul ainda colocava o pé na estrada,

Como fez um dia com Ouro de Tolo.

 

Em 1988, A Pedra do Gênesis,

 Este que fora o seu penúltimo LP.

Um disco gravado no peito e na raça,

Onde seus fãs puderam perceber

Toda a fragilidade do cantor.

Já sem voz, esvaindo-se em dor,

Ainda assim, não parava de beber.

 

Na companhia de Marcelo Nova,

Com quem até já havia gravado,

Realizou uma turnê pelo Brasil,

Havendo cinquenta shows realizado.

Foi, de certa forma, uma despedida,

Quando Raul lançou ainda em vida

Seu último LP, A Panela do Diabo.

 

Uma parceria que gerou frutos,

Marcelo virou psicólogo (sem divã),

Guiando Raul nos últimos momentos,

Plantando a semente do amanhã.

Visto por alguns como aproveitador,

Guiou Raul na alegria e na dor,

Exercendo papel de discípulo e fã.

 

Raul Seixas e Marcelo Nova

Na mesma “panela” cozinhavam.

Era o que crentes e evangélicos

A respeito da dupla comentavam.

Inclusive, o nome desse último disco

Foram eles que deram, acredito,

Pelo que tanto sugestionavam.

 

Um álbum polêmico que, no final,

O quarto disco de ouro mereceu.

Lançado em 19 de agosto de 1989,

Dois dias depois, Raul Seixas faleceu.

Canções inesquecíveis, frente e verso,

Século XXI, Carpinteiro do Universo...

100 mil cópias rapidamente vendeu.

 

Como diziam Raul e Marcelo,

(Taí o troco, entendam como quiser)

“O sucesso da minha existência

Está ligado ao exercício da fé.

Pois, se ela remove montanhas...

Quem sabe, pode trazer grana

E também um monte de mulher.”

 

Nascido de uma família católica,

Pouco demonstrava religiosidade.

Cético e agnóstico, amava filosofia,

No conhecimento, rebatia verdades.

Do muito que observou e aprendeu,

Não convém chamar Raul de ateu,

Pois respeitava todas as divindades.

 

Entre os cem maiores cantores

Do cenário musical brasileiro,

Raul apresenta discos e músicas

Bem colocados em nosso cancioneiro.

É o artista de quem mais se escreveu,

Biografias que muita gente já leu,

Críticos e famosos do país inteiro.

 

Fãs clubes espalhados pelo Brasil,

Raul detém marcas impressionantes.

Pai do Rock brasileiro, virou mito.

Ouvir “Toca Raul!” é algo constante.

E como um fã póstumo que sou,

Ouço Raul Seixas aonde eu vou,

Seja Gita, Metamorfose Ambulante...

 

Em agosto de 1989, veio a falecer,

Em São Paulo, no seu apartamento.

Foi encontrado por sua empregada.

Descansou, enfim, do seu sofrimento.

Porém, causando aos fãs comoção

E, durante o velório, mais emoção.

Por fim, na Bahia, o sepultamento.

 

Há quem diga que não morreu,

Pois ele vive em nossos corações.

Talvez pegou algum disco voador

E foi parar em outras dimensões.

Em algum lugar, no nada infinito,

Flamejando o seu Rock, o seu grito,

Liderando e arrastando multidões.

 

Raul para sempre será lembrado,

Disso eu tenho absoluta certeza.

A sua obra musical é um legado

De vasto conhecimento e riqueza.

O Raulseixismo é uma religião,

Propagando a poesia e a canção

Do nosso eterno Maluco Beleza.



Sobre o autor:

Paulo Albino Vieira, mais conhecido por Paulo Seixas, pseudônimo que faz referência ao seu ídolo musical, Raul Seixas, nasceu no Rio de Janeiro no dia 1º de fevereiro de 1973 e, aos três anos de idade, veio com seus pais morar na cidade de Queimadas, Paraíba. Formado em Jornalismo pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), antes disso, ele já desenvolvia projetos na área de literatura/poesia de cordel, uma paixão que começou desde a sua infância. Atualmente, ministra palestras sobre o tema em escolas municipais e particulares.


Rebelde, anarquista, talvez um pouco exagerado,

Assim foi Raulzito, qual verdadeira lenda viva.

Uma figura expressiva, baiano pra lá de arretado,

Levando à criação de uma Sociedade Alternativa.

 

Somada à trajetória de seus grandes sucessos

Em uma carreira um tanto quanto conturbada,

Incluem-se canções antológicas e letras de protesto;

Xeque-mate na hipocrisia das mentes acomodadas.

A despeito, Ouro de tolo, que de simples manifesto

Simbolizou uma década egoísta e desenfreada.


“Luar é meu nome aos avessos, não tem fim nem começo.”

(RAUL SEIXAS)