O ENTREGADOR DE AÇO
Foi
na falta do que fazer
Que
ontem me pus a lembrar
De
um “peão” bom pra valer,
E
a sua história eu vou contar.
Trata-se
assim, de um “coroa”,
Um
sujeito muito gente boa
Que
não tem medo de ralar.
Nunca
aqui, na Água Pura,
Houve
um caso parecido.
Um
exemplo de bravura,
De
um homem destemido.
Ele
tem mais de “quarenta”,
E esse “véi” ainda aguenta
Encarar tamanho suicídio.
Vai
gostar de trabalhar assim
Lá
pras bandas da “Baixada”.
Encarar
esse serviço ruim
E
nunca reclamar de nada,
Faz
jus a qualquer elogio.
Entregador
assim, no Rio,
Merece
um patrão camarada.
Para
encarar essa jornada
E
ainda morar tão longe,
É
preciso ter fé na parada
E
uma paciência de monge.
Preguiça
com ele não tem vez,
Só
de pensar na entrega do mês
Tem
“neguim” que até se esconde.
Todo dia, podem acreditar,
Antes mesmo de o sol nascer
Ele já começa a se preparar,
E nunca lhe falta o que fazer.
Arruma-se, apronta a marmita,
Escova o dente lá na “bica”
E numa prece se põe a dizer:
-
Senhor, muito obrigado
Por
mais este dia de ação.
À
noite, mesmo cansado,
Vou
fazer uma nova oração:
“Nossa
Senhora da Caixinha,
Me
aproxime das velhinhas,
Mas
só as de bom coração!”
E
corre para pegar o trem
Lá
pelas quatro da manhã.
Não
espera por mais ninguém,
“Voa”
que nem avião da TAM.
Antes,
toma um café com “broa”,
Dá
um beijinho na “patroa”,
Aquela
que é sua maior fã.
E
quando o galo vem cantar
Esse
“véio” já está a caminho.
Sem
ter com quem conversar,
Por
vezes, ele viaja sozinho.
E,
finalmente, chega à Central.
Pegando
um ônibus da Real,
Já
com dois sacos de lanchinho.
E
às seis horas, sempre fiel,
Ele
chega em Copacabana.
Atravessa
a Princesa Isabel,
No
boteco toma uma “cana”.
E
se prepara pra mais um dia,
Sempre
cheio de gás e correria
Para
levantar aquela grana.
Mas
aí começa uma espera
Da
qual ele não pode fugir:
Fica
na porta de sentinela,
Esperando
o Mazinho abrir.
E
o tempo vai se passando,
Os
outros “peão” chegando,
Uns
a chorar, outros a sorrir...
Esse é o “Antônio Virgulino”,
Um descendente de Lampião,
Caboclo, forte, desde menino
Lá pelas quebradas do Sertão.
Um paraibano macho e valente
Que faz inveja a muita gente,
Por sua garra e determinação.
Quando
criança não pôde estudar,
Mas,
felizmente, aprendeu a ler.
Nas
entregas sabe se “virar”,
Nome
de rua dá pra entender.
Porém,
se vê algo diferente,
Ele
vem, pergunta pra gente;
Um
segundo não pode perder.
Ele
até já deixou de almoçar
Por
uma entrega lá no Leblon.
Como
crente que vive a pregar,
Para
ele tudo sempre está bom.
Carreto
recusado pela gente,
Para
ele é como um presente;
Seu
“Toin” nunca perde o tom!
E
se alguém se descuidar,
Ele
passa à frente na moral.
Fura
a fila sem se desculpar,
Sempre
na maior cara de pau.
Seu
Antônio é mesmo um barato,
Com
aquele seu bigode de rato
E
com aquela cara de mau.
Encara
um caminhão carregado
Como
se estivesse brincando.
É
forte como um boi de arado
E
tem disposição até sobrando.
Para
acompanhar esse coroa
Tem
que ter a saúde muito boa,
Ou
alguém vai sair reclamando...
Seria
um desespero profundo
Pra
qualquer outro entregador,
Enfrentar
esse serviço “imundo”
Por
tão mísero e pequeno valor.
Como
diz aquele velho ditado:
Nem
sovaco de um aleijado
Consegue
ser tão sofredor.
Contudo, Seu Toin é trabalhador,
Um vencedor por sua natureza.
Defeitos à parte, um batalhador,
E mora longe que é uma tristeza.
Porém, não reclama, seja como for.
Pega ônibus, trem, carroça, até trator
Vindo feliz enfrentar essa dureza.
Embora
a fama de olho grande
Lhe
incomode um pouquinho,
Ele
nem sempre é um muquirana,
E
tampouco um cara mesquinho.
E
essa sua correria desesperada,
Além
de prejuízo, não dá em nada,
Como
puxar o saco de Mazinho.
Mas
Seu Antônio já aprendeu
Que
o bom é ficar na moleza.
Como
também já se convenceu
Que
é melhor fugir da “brabeza”.
“Carreto”
longe, até o diabo teme,
A
preferência é ficar pelo Leme,
Tapeando
com muita esperteza.
Seguro
nas finanças, leva sua vida,
Tem
casa própria, e até um carrinho.
Gosta
de passear, viajar pra Paraíba,
A
Terra natal, por quem tem carinho.
Nas
entregas, tá sempre na “briga”.
“Mão
de vaca”, moderou na barriga,
Poupando
no troco do cafezinho.
Não
que Seu Toin seja um sujeito
Puxa-saco
e até metido a brigão.
Ou,
talvez, um entregador perfeito,
Desses
que sequer quebra garrafão.
Ele
é arrojado, tem seu próprio jeito,
Como
descarregador tem um defeito:
Só
quer ser o dono do caminhão.
O
trabalho aqui na Água Pura
Não
é apenas um ofício pesado.
É
como uma espécie de loucura
Que
abala qualquer condenado.
Para
muitos, seria decretar o fim.
Porém,
como se trata de Seu Toin,
Pra
ele é café pequeno e coado.
Como um boi que não imagina
E sequer sabe a força que tem,
Seu Antônio segue a sua sina,
Enquanto a saúde lhe mantém.
Que venha a melhora algum dia,
Quando vier sua aposentadoria
E poder descansar muito bem.
Enfim,
por aqui vou encerrar,
Desse
testemunho não abro mão.
Só
pra esclarecer, devo lembrar:
Tudo
o que falei foi de coração.
Estou
certo de que, finalmente,
Encontrei
um grande oponente
Que merece minha consideração.
RIO, 02/MARÇO/2008

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