quarta-feira, 22 de julho de 2026

SEU ANTÔNIO - O ENTREGADOR DE AÇO - Cordel

 O ENTREGADOR DE AÇO


Foi na falta do que fazer

Que ontem me pus a lembrar

De um “peão” bom pra valer,

E a sua história eu vou contar.

Trata-se assim, de um “coroa”,

Um sujeito muito gente boa

Que não tem medo de ralar.

 

Nunca aqui, na Água Pura,

Houve um caso parecido.

Um exemplo de bravura,

De um homem destemido.

Ele tem mais de “quarenta”,

E esse “véi” ainda aguenta

Encarar tamanho suicídio.

 

Vai gostar de trabalhar assim

Lá pras bandas da “Baixada”.

Encarar esse serviço ruim

E nunca reclamar de nada,

Faz jus a qualquer elogio.

Entregador assim, no Rio,

Merece um patrão camarada.

 

            Para encarar essa jornada

            E ainda morar tão longe,

            É preciso ter fé na parada

            E uma paciência de monge.

            Preguiça com ele não tem vez,

            Só de pensar na entrega do mês

            Tem “neguim” que até se esconde.

 

Todo dia, podem acreditar,

Antes mesmo de o sol nascer

Ele já começa a se preparar,

E nunca lhe falta o que fazer.

Arruma-se, apronta a marmita,

Escova o dente lá na “bica”

E numa prece se põe a dizer:

 

            - Senhor, muito obrigado

            Por mais este dia de ação.

            À noite, mesmo cansado,

            Vou fazer uma nova oração:

           “Nossa Senhora da Caixinha,

            Me aproxime das velhinhas,

            Mas só as de bom coração!”

 

E corre para pegar o trem

Lá pelas quatro da manhã.

Não espera por mais ninguém,

“Voa” que nem avião da TAM.

Antes, toma um café com “broa”,

Dá um beijinho na “patroa”,

Aquela que é sua maior fã.

 

E quando o galo vem cantar

Esse “véio” já está a caminho.

Sem ter com quem conversar,

Por vezes, ele viaja sozinho.

E, finalmente, chega à Central.

Pegando um ônibus da Real,

Já com dois sacos de lanchinho.

 

E às seis horas, sempre fiel,

Ele chega em Copacabana.

Atravessa a Princesa Isabel,

No boteco toma uma “cana”.

E se prepara pra mais um dia,

Sempre cheio de gás e correria

Para levantar aquela grana.

 

            Mas aí começa uma espera

            Da qual ele não pode fugir:

            Fica na porta de sentinela,

            Esperando o Mazinho abrir.

            E o tempo vai se passando,

            Os outros “peão” chegando,

            Uns a chorar, outros a sorrir...

 

Esse é o “Antônio Virgulino”,

Um descendente de Lampião,

Caboclo, forte, desde menino

Lá pelas quebradas do Sertão.

Um paraibano macho e valente

Que faz inveja a muita gente,

Por sua garra e determinação.

 

            Quando criança não pôde estudar,

            Mas, felizmente, aprendeu a ler.

            Nas entregas sabe se “virar”,

            Nome de rua dá pra entender.

            Porém, se vê algo diferente,

            Ele vem, pergunta pra gente;

            Um segundo não pode perder.

 

Ele até já deixou de almoçar

Por uma entrega lá no Leblon.

Como crente que vive a pregar,

Para ele tudo sempre está bom.

Carreto recusado pela gente,

Para ele é como um presente;

Seu “Toin” nunca perde o tom!

 

E se alguém se descuidar,

Ele passa à frente na moral.

Fura a fila sem se desculpar,

Sempre na maior cara de pau.

Seu Antônio é mesmo um barato,

Com aquele seu bigode de rato

E com aquela cara de mau.

 

Encara um caminhão carregado

Como se estivesse brincando.

É forte como um boi de arado

E tem disposição até sobrando.

Para acompanhar esse coroa

Tem que ter a saúde muito boa,

Ou alguém vai sair reclamando...

 

            Seria um desespero profundo

            Pra qualquer outro entregador,

            Enfrentar esse serviço “imundo”

            Por tão mísero e pequeno valor.

            Como diz aquele velho ditado:

            Nem sovaco de um aleijado

            Consegue ser tão sofredor.

 

Contudo, Seu Toin é trabalhador,

Um vencedor por sua natureza.

Defeitos à parte, um batalhador,

E mora longe que é uma tristeza.

Porém, não reclama, seja como for.

Pega ônibus, trem, carroça, até trator

Vindo feliz enfrentar essa dureza.

 

            Embora a fama de olho grande

            Lhe incomode um pouquinho,

            Ele nem sempre é um muquirana,

            E tampouco um cara mesquinho.

            E essa sua correria desesperada,

            Além de prejuízo, não dá em nada,

            Como puxar o saco de Mazinho.

 

Mas Seu Antônio já aprendeu

Que o bom é ficar na moleza.

Como também já se convenceu

Que é melhor fugir da “brabeza”.

“Carreto” longe, até o diabo teme,

A preferência é ficar pelo Leme,

Tapeando com muita esperteza.

 

Seguro nas finanças, leva sua vida,

Tem casa própria, e até um carrinho.

Gosta de passear, viajar pra Paraíba,

A Terra natal, por quem tem carinho.

Nas entregas, tá sempre na “briga”.

“Mão de vaca”, moderou na barriga,

Poupando no troco do cafezinho.

 

Não que Seu Toin seja um sujeito

Puxa-saco e até metido a brigão.

Ou, talvez, um entregador perfeito,

Desses que sequer quebra garrafão.

Ele é arrojado, tem seu próprio jeito,

Como descarregador tem um defeito:

Só quer ser o dono do caminhão.

 

            O trabalho aqui na Água Pura

            Não é apenas um ofício pesado.

            É como uma espécie de loucura

            Que abala qualquer condenado.

            Para muitos, seria decretar o fim.

            Porém, como se trata de Seu Toin,

            Pra ele é café pequeno e coado.

 

Como um boi que não imagina

E sequer sabe a força que tem,

Seu Antônio segue a sua sina,

Enquanto a saúde lhe mantém.

Que venha a melhora algum dia,

Quando vier sua aposentadoria

E poder descansar muito bem.

 

            Enfim, por aqui vou encerrar,

            Desse testemunho não abro mão.

            Só pra esclarecer, devo lembrar:

            Tudo o que falei foi de coração.

            Estou certo de que, finalmente,

            Encontrei um grande oponente

            Que merece minha consideração.   


                                                        RIO, 02/MARÇO/2008  



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