domingo, 25 de janeiro de 2026

CORDEL DESEMPREGADO AOS 40 - DO PESSOAL PARA A POESIA - ampliado


 

QUEIMADAS PB, MAIO/2019

 

Na ociosidade em que eu vivo

Há muito tempo sem trabalhar,

Sem ter uma rotina, um emprego

No qual eu possa me ocupar,

Pergunto-me: O que faço aqui?

Muitas coisas me fazem refletir

Sobre a vida que vivo a levar.

 

          Uma vida vazia, sem objetivos,

          Sem algo que faça a diferença.

          Onde nada faço, nado construo,

          Apenas uma cabeça que pensa.

          Mas, como diz o meu velho pai,

          “Todo penso é torto”, e logo vai

          Aumentando minha descrença.

 

Sempre pela manhã, ao acordar

Vou consultar a minha agenda.

Sem nada pra fazer, o dia inteiro,

Uma despreocupação tremenda.

Limpo um quintal, varro calçada,

Não fico à toa, sem fazer nada,

Embora isso não resulte renda.

 

          “Mente vazia é oficina do diabo”,

          Já diz um antigo ditado popular.

          Na falta de um emprego formal,

          Coloco a mente para funcionar.

          Faço “bicos”, escrevo poemas,

          Não resolve meus problemas,

          Mas ajuda o tempo a passar.

 

Muitos “amigos” até se afastam,

E em conversas de pé de muro

Começam a me malhar e difamar:

- Aquilo é um zé ruela, sem futuro!

Um bom amigo, pra muita gente

É o que traz o dinheiro na frente,

Fazendo outro se sentir seguro.

 

          Amizade sem qualquer interesse,

          Conservo algumas no coração.

          Que pensam no meu bem estar,

          Independente da minha condição.

          Referente à minha conta bancária,

          Essa continua sempre precária,

          Difícil de apresentar uma solução.

 

“Não tenho onde cair vivo”, seria

A forma correta de me expressar.

Desempregado, e sem dinheiro,

Dívida jamais poderia comportar.

Meu nome, há de continuar limpo,

Pois, cada dia mais eu pressinto

De que alguma coisa vai mudar.

 

          Do jeito que está, nunca poderei

          Algum dia nesta vida conseguir,

          Uma independência financeira,

          Algum patrimônio vir a adquirir.

          Não adianta só conhecimento,

          Tem que suar, “cair pra dentro”,

          Fazer acontecer, e repercutir.

 

De que adianta ter formações

Em nível técnico e até superior,

Se eu não consigo um trabalho

Em qualquer uma área que for?

Ainda sou “pau para toda obra”,

Apesar de que a saúde cobra,

Uma coluna que me causa dor.

 

          Tem gente que só fica esperando

          Alguma coisa acontecer e mudar.

          Mesmo a chuva que cai é preciso

          Ter um reservatório para guardar.

          Igual ao trigo que, para se colher,

          É necessário arar a terra e saber

          Que existe hora certa de semear.

 

Não são metáforas ou analogias

Que vão resolver o meu problema.

O fato é que o sistema trabalhista,

Em nível de Brasil, virou esquema.

Empresário explora, não é amador,

Empregado pra ele não tem valor,

Será sempre esse mesmo sistema.

 

          Não procuro cobrar do meu país,

          Inclusive, dos nossos governantes

          Pela crise que assola este Brasil,

          Onde o desemprego é constante.

          Nessa minha vida de comodismo,

          Falta-me certo empreendedorismo

          Que já tive num passado distante.

 

Pois me deixei levar pelo tempo

E brinquei mais do que eu devia.

Nos trabalhos por onde passei

Sempre lutei pela “mais valia”.

Patrão de mim, jamais gostou,

E assim, a minha vida passou,

Ficando a experiência em dia.

 

          Quanto mais conhecer direitos,

          Suas prerrogativas trabalhistas,

          É que o trabalhador brasileiro

          Descobre quanto há injustiças.

          Nem sempre carteira assinada

          Significa cumprir uma jornada;

          Fica mais simples ser diarista.

 

Salário reduzido e até mal pago,

Embora o trabalho seja integral.

Onde muitos entram na empresa

Já pensando em “colocar no pau”.

Por isso, continuo desempregado,

Mas não hei de ficar desesperado;

Pior do que está não fica, afinal.

 

          “Empregado, nem pra comer doce”,

          É mais um antigo ditado popular.

          Seja formal ou da informalidade,

          Trabalhador tem que se desdobrar.

          Pois todo empregador ou patrão,

          Só quer do funcionário dedicação,

          Não adianta portanto, vir bajular.

 

Com um bom histórico na carteira,

O bom profissional sempre rende.

Mas, após os quarenta, fica difícil,

Nenhum empregador compreende.

Problema igual que o jovem retrata,

Sem experiência, não se contrata;

E sem ter chance, nunca aprende.

 

          Essa é uma realidade incoerente,

          Sempre foi assim, não vai mudar.

          Requerer experiência dos jovens

          É ver a ordem das coisas se alterar.

          Viemos nessa vida para aprender,

          Ninguém nasce pronto a se saber,

          Sem antes ao menos, poder errar.

 

No Brasil é difícil ter esperanças.

Podemos esperar uma melhora?

O mais difícil é imaginar um país

Onde a própria lei não corrobora.

Complicado, isso tem que mudar.

O ideal seria a base transformar,

Investir na Educação, na Escola.

 

          O brasileiro já vive acostumado

          A aceitar tudo, sem nada a dizer.

          Poucos conhecem seus direitos,

          Na vida, no trabalho, até no lazer.

          E o desemprego é barra-pesada,

          Falta mão de obra especializada,

          Aquela onde é preciso conhecer.

 

Para se combater o desemprego,

Tem que investir em capacitação.

No Brasil, é a mão de obra barata

E o subemprego que vira opção.

Uma juventude que não estuda,

Ao buscar emprego, não se iluda,

O que vai conseguir é ser “peão”.

 

          Cada qual que resolva sua vida.

          Eu, por minha vez, me garanto.

          Consigo atuar em várias áreas,

          Ou trabalhar em qualquer canto.

          Não sou exigente, sou factual.

          Já que não sou um intelectual,

          Vou me virando, por enquanto.

 

A vida de um homem é trabalhar,

Ou encara esse fato ou desiste.

Viver como mendigo, vagabundo,

É uma vida realmente muito triste.

Diz o ditado, “O trabalho enobrece”,

Mas também adoece, enlouquece...

Nesse mundo onde de tudo existe.

 

          Sem ter um compromisso na vida,

          Um homem nunca há de avançar.

          Só uma preocupação, uma dívida

          E até uma mulher pra lhe chatear

          É que transforma o seu destino.

          Nunca vai passar de um menino

         Se não tiver com que se ocupar.


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