terça-feira, 7 de julho de 2026

BIOGRAFIA - MIGUEL FRANCISCO FLOR, O POPULAR “TI MIGUÉ”

Cujo objetivo é o resgate e a preservação da memória do nosso município.

MIGUEL FRANCISCO FLOR, O POPULAR “TI MIGUÉ” - 

por Paulo Seixas

PERSONAGEM DE HOJE: Miguel Francisco Flor

No próximo dia 10 de julho de 2026, se ainda estivesse vivo, Miguel Francisco Flor, ou melhor, “Ti Migué” estaria completando 116 anos de idade. Este perfil biográfico é justamente para lembrar a pessoa honrosa que ele representou para toda a sociedade queimadense. Miguel Chico, ou simplesmente, “Ti Migué”, foi um homem honrado.


MIGUEL FRANCISCO FLOR - O POPULAR  “TI MIGUÉ”          QUEIMADAS/PB. Por Paulo Seixas

- Miguel Francisco Flor - mais conhecido por “Ti Migué”, como era carinhosamente chamado (até porque ele tinha muitos sobrinhos espalhados pelo lugar) -, nasceu e viveu toda a sua vida na cidade de Queimadas PB. Veio ao mundo no dia 10 de julho de 1910;

 - Inicialmente, viveu com seus pais na rua Francisco Ernesto do Rêgo, a Rua Nova. Depois de casado, alguns anos mais tarde, já na década de 1950, mudou-se para a rua Eunice Ribeiro, onde viveu até o final de sua vida;

 - Era filho dos saudosos José Francisco Flor e Lucinda Maria da Conceição. Pessoas simples que, apesar de viverem na cidade, levavam a vida como camponeses;

- Não há nenhuma informação sobre a infância e juventude de Seu Miguel Chico. E nem tampouco sobre a sua escolaridade, seu grau de estudo. Porém, acredita-se que ele só tenha sido alfabetizado e trabalhado na roça durante toda a juventude, durante o tempo em que conviveu em casa, com seus pais e toda a família;

- Nascido em uma família de muitos irmãos, dez no total, alguns deles ficaram bem conhecidos na cidade por viverem do comércio, como: Antônio Chico, João Chico, Vital Francisco, Vicente Chico (este último consertava calçados);

- Nasceram e se criaram na Rua Nova. Precisamente, a casinha de taipa onde cresceram, ficava logo na entrada de uma rua que dava acesso à subida da Pedra do Bico, rua essa que existia até um tempo atrás;

- Viviam da agricultura, do plantio de algodão, mas alguns deles logo despontaram para o comércio. Destacando aqui que eles estiveram entre os primeiros comerciantes do município de Queimadas, onde as pessoas, até mesmo da zona rural, vinham realizar as compras da semana em seus estabelecimentos;

- Em 1950, Seu Miguel comprou um terreno na Rua Eunice Ribeiro, nº 423, o qual vai até o outro lado da rua César Ribeiro (Calçadão Tataguaçu), e construiu sua casa com a mercearia na frente. Há um tempo atrás, após seu falecimento, a casa passou por uma grande reforma, onde Dona Mariquinha, sua segunda esposa, continua morando com a filha caçula;

- Miguel Chico casou inicialmente por volta dos 23 anos, ainda na década de 1930, com Josefa Ferreira Dantas. Desse casamento nasceram os seguintes filhos: José Ferreira Dantas, Maria de Lourdes Dantas, Maria da Guia Dantas, José Maria Dantas, José Nilson Dantas e Maria José Dantas. Quatro deles professores, hoje aposentados. E dois deles comerciantes;

- No ano de 1970 sua primeira esposa faleceu e Ti Migué, em 1976, já com 66 anos, casou novamente com Maria Severina Gomes, mais conhecida por todos como Dona Mariquinha. Desse segundo casamento nasceram os seguintes filhos: Maria Roseane Gomes Flor, Maria Roselita Gomes Flor, Maria Rosilene Gomes Flor e Maria Rosinete Gomes Flor. Tiveram ao todo seis filhos, porém, duas dessas crianças faleceram;

- Trabalhou durante muitos anos na agricultura. Paralelamente a isso, possuía um comercio varejista de gêneros alimentícios, em sua residência, situada à rua Eunice Ribeiro. Uma “bodega” das antigas, a qual ele segurou até o fim de sua vida;

- Além do comércio, ele tinha um roçado no Sítio Capim de Planta, o qual era seu refúgio particular, um lugar aonde ele gostava de ir, sentindo-se bem. Plantava milho, feijão, fava, jerimum, melancia, quiabo, maxixe... Sempre ia na sua bicicleta, de acordo com sua família, até por volta dos seus 82 anos de idade;

 - Porém, sua maior preocupação era com o futuro de seus filhos, em especial, o futuro profissional de cada um. E essa preocupação se tornou ainda maior com a chegada das filhas do seu segundo casamento, uma vez que ele já caminhava para a terceira idade e queria o melhor para todas elas. E assim, seguindo os passos da mãe, que foi professora do ensino fundamental pela prefeitura e pelo Estado, todas quatro se formaram professoras, com diferentes licenciaturas, atuando em seus ofícios até os dias de hoje. Ti Migué certamente morreu realizado nesse ponto;

- Ti Migué era um homem tradicional, das antigas mesmo, e soube criar as suas “filhas mulher” com a mesma educação rígida do passado. Até onde se sabe, detestava modismos e extravagâncias. No que dependesse de sua vontade, ele queria ver todas apenas entre a igreja e a escola. Sem frequentar bailes, passeios noturnos, e até a televisão ele demorou algum tempo para ceder;

- Miguel Francisco Flor, mais conhecido por “Ti Migué” ou mesmo Miguel Chico, faleceu no dia 24 de agosto de 1998, acometido por problemas cardíacos. E, como foi dito no início deste perfil, se ainda estivesse vivo, estaria completando 116 anos de idade no próximo dia 10 de julho de 2026;

- A rua Miguel Francisco Flor, que fica no bairro do Castanho, foi uma homenagem da cidade ao popular Ti Migué. O nome para essa rua foi sancionado no dia 14/03/2012 pelo então prefeito José Carlos de Souza Rêgo, Carlinhos de Tião, a partir do projeto de lei número 310/2012;             

 

ABRINDO ESPAÇO PARA O APRESENTADOR DESTE PERFIL:

- Dentre as lembranças que guardo de Ti Migué, lembro que ele era um senhor muito simpático, vivia sempre com um sorriso no canto da boca. Vez ou outra, ele comprava alguma coisa no comércio de meu pai para revender. Geralmente, uma saca de feijão ou de açúcar, e eu prontamente ia entregar num carrinho de mão. Ele sempre me dava uma gorjeta, embora eu procurasse recusar. Falo aqui das décadas de 1985 a 1995, aproximadamente;

E, finalmente, para justificar a apresentação deste perfil biográfico...

- Eu, Paulo Seixas, em nome do nosso Instituto Histórico e Geográfico de Queimadas (IHGQ), alegro-me ao prestar, através deste perfil, esta honrada e merecida homenagem ao grande homem que foi Miguel Francisco Flor, mais conhecido por Miguel Chico ou Ti Migué, um grande exemplo de cidadão queimadense.


Fontes de pesquisa e fotografias:                      

A maior parte do material aqui apresentado foi extraído do livro do professor Antônio Carlos, referente às ruas de Queimadas, com informações precisas fornecidas por Dona Mariquinha acerca do perfil biográfico de seu falecido esposo. As únicas fotografias aqui apresentadas, uma foi retirada do Blog Tataguaçú do prof. Ezequiel Lopes. A outra, foi gentilmente cedida pelo professor Antônio Carlos.

 

 


terça-feira, 30 de junho de 2026

SONETO - FESTA DE SÃO JOÃO AMEAÇADA

 SONETO - FESTA DE SÃO JOÃO AMEAÇADA


Nossa festa de São João tradicional

Já virou piada pelos quatro cantos,

Evento que vem perdendo o encanto

Com esses formatos de festa atual.

 

A descaracterização é quase total

E já não causa qualquer espanto,

Em vez de comemorarem o santo

Apelam pro que há de mais banal.

 

O Parque do Povo é uma aberração,

Em vez de forró, na principal atração,

Trazem Roberto Carlos para cantar.

 

Proibiram fogueira, balão, foguetão,

Se isso agora é festejar o São João,

Imagina o que o futuro nos proverá... 

                           

                      Paulo Seixas, junho/2026

segunda-feira, 15 de junho de 2026

ÁGUA PURA - A SUCURSAL DO INFERNO - Cordel atualizado








NA “ÁGUA PURA” É ASSIM... 

 

Há trabalho que se suporte,

Outros do tipo “ainda se atura”.

Há trabalhos que levam à morte

Ou que fazem beirar a loucura.

Portanto, se você é um fracote

Não procure desafiar sua sorte

Trabalhando na Água Pura!

                  

Um serviço um tanto arriscado

De tão pesado, até desespera.

Imagine um triciclo quebrado

Descendo a mil numa banguela;

Pode deixar o sujeito acamado,

Com a cabeça e crânio rachado,

Além de quebrar umas costelas.

 

Uma fábrica de gerar doente,

Seja peladura ou arranhão.

Coluna não há quem aguente,

É muito esforço e contusão.

E, pra surpresa de muita gente,

Ainda se pode ficar contente

Quando não quebra garrafão.

 

        Para cada garrafão quebrado

        Eis que surge a cena ingrata;

        No salário já vem descontado

        Pelo patrão sangue de barata.

        Esse é o veredicto e atestado,

        O entregador sendo maltratado

        Tal qual um cachorro vira-lata.

 

Nem Jesus Cristo no calvário

Sofreu tamanha humilhação.

Em sua época não havia otário

Que trabalhasse por comissão;

O justo deveria ser um salário,

Um ganho mínimo e necessário,

E porcentagem em cada galão.

 

         Pra compensar o trabalho extra

         Que há de sempre aparecer,

         Desacompanhado de gorjeta,

         Fazendo um entregador sofrer.

         De segunda-feira até a sexta,

         Lavar garrafão de madame besta

         Sem ganhar “caixinha” é de doer.

 

É a caixinha que fortalece

O salário de um trabalhador.

Tem gente que até esquece

Do direito de um entregador,

Que ajeita, afaga e agradece,

Que faz por onde e merece

Uma moeda de qualquer valor.

 

Lembrando aqui uma raça

Existente no Rio de Janeiro,

Certamente a pior desgraça

Que abrange o mundo inteiro.

Nenhum entregador aguenta

Essa raça sovina e avarenta

         Conhecida por “pirangueiro”.

 

É um miserável que faz conta

Da moedinha de um centavo.

Esse merece levar uma ponta,

Não passa de um corno safado.

Um filha da puta, um “mindingo”,

Deixa de ir à missa aos domingos

Para não ter que dar um trocado.

 

         Pode parecer mesmo loucura

         Trabalhar em um lugar assim.

         Ser entregador na Água Pura

         É buscar pelo seu próprio fim.

         Como tempo mal, sem fartura,

         Um trabalho que é a mistura

         Daquilo que há de mais ruim.

 

Mas o diabo que se condena

Não é tão feio como se pinta.

Tem dias que até vale a pena

Fazer entregas, não se minta:

Mas, que seja só até Ipanema.

Com algum feriado em cena,

Ou que o mês seja de trinta.

 

         Um trabalho sem fiscalização,

         Talvez por isso até seja bom.

         Ruim é descarregar caminhão,

         Ir para Botafogo ou Leblon.

         São as exigências do patrão,

         Como ter que limpar o chão,

         Uma invenção do Seu Ision.

 

Sem essa de lavar banheiro,

Entregador não é escravo.

Isso é serviço de faxineiro

E pra isso ninguém é pago.

É trabalho para o mês inteiro,

Acrescentem mais dinheiro,

Ou a faxina ficará de lado.

 

É do Mazinho tal obrigação,

Não faz nada o dia inteiro,

Só vive a soprar garrafão,

Em perturbação é o primeiro.

Pigmeu de academia, anão,

Seu diploma de musculação

Procure usar no banheiro.

 

Um entregador que se preza

Vive reclamando a toda hora.

Pede acordo, chora, até reza,

Implora para poder ir embora

Ao patrão que o menospreza.

Desiludido, a Deus despreza,

Rogando ao diabo a melhora.

  

         Até porque ser despedido

         Isso é caso de muita luta,

         Nem que ele tenha ofendido

         Algum cliente filha da puta.

         No entanto, vem logo o castigo,

         Um “Leblon” bem sacudido

         Como uma espécie de multa.

      

Não é à toa que um fulano

Que sequer vem trabalhar,

Consegue ficar quatro anos

“Empregado” neste lugar.

Aqui se aceita todo mundo,

Safado, vigarista, vagabundo,

Basta apenas saber pedalar.

 

         O sofrimento só é constante

         Para quem decide encarar.

         Aquele novato, ou iniciante,

         A qualquer hora pode rodar.

         Somente a carteira assinada

         É uma garantia confirmada

         De quem pretende bagunçar.


 E tantos por aqui já passaram...

Alguns sequer completaram o dia.

Mas, em sua passagem deixaram

Um rastro de sangue e agonia.

Hoje, enfim, os que escaparam

Ou estão loucos ou se deparam

Em alguma sala de psiquiatria.

 

Dos que começaram o ano

Resta a metade da demanda.

Tem o velho Jorge do Turano,

O Karlão da Nova Holanda

E o Marcelo Manjubinha,

Um morador lá da Rocinha

Que “faz água” pra caramba.

 

Tem o “Berone” Marcha-Lenta

Trabalhando como clandestino,

Haroldo Bucha, quem aguenta?!

Só sabe mesmo viver dormindo.

E o André, sujeito sem futuro,

Uma briga de foice no escuro

É mais bonita do que ele rindo.

  

         E, óbvio, o narrador destes fatos

         Que não se esconde na história.

         Testemunha ocular de alguns atos

         Que haverão de ficar na memória.

         E que jamais esquecerá a loucura

         De haver pisado na Água Pura

         Uma prisão sem escapatória.

 

No fim, a liberdade prevalece,

Apesar de muito a se lamentar.

Ralou na Água Pura não esquece,

Vez ou outra se pensa em voltar.

Castigo que ninguém merece,

Porém, a gorjeta que fortalece

É um incentivo para retornar.

 

         Dê seu sangue por este lugar

         Que haverá de se arrepender.

         Faça o seu nome se destacar

         Que só vão fazer você sofrer.

         Mas, se ficar em 1º no placar

         Não venha depois se lamentar

         Das dores que irão lhe ocorrer.                             

                                              RIO, JUNHO/2003

 

LAMENTO DE UM ENTREGADOR

 

Portanto, continuar a trabalhar,

Encarar todo dia a “Água Pura”,

A minha vida nunca vai melhorar,

Só vai cultivar minha amargura.

O meu ódio sim, vai aumentar,

E o meu tédio ainda vai acabar

Levando-me às vias da loucura.

 

Uma empresa que não respeita

Seus empregados e seus valores,

Que não tá nem aí pras caretas

Que denunciam as nossas dores,

Merece é passar pela caneta

Daquele homem da capa preta,

Da beca desprovida de cores.

 

Ao longo desses quase quatro anos

Há muito cheguei numa conclusão:

É algo contra os direitos humanos,

Subir morro e descarregar caminhão.

Ipanema, Leblon, afetam nosso juízo,

Ralar nesse caminhão causa prejuízo,

Seja na coluna ou ter que pagar galão.

 

         Isso é uma grande sacanagem,

         Entregador também tem direito.

         50 centavos de porcentagem

         Para realizar todo esse feito,

         É melhor jogar na vida do crime.

         Porque fazer parte desse time

         Tem que ter o juízo imperfeito.

 

Continuando a falar de dinheiro

Que é a maior alegria do povo,

Por sinal, desse mundo inteiro,

Isso não é um pensamento novo,

Na Água Pura ele é “forasteiro”:

Ninguém sabe do seu paradeiro,

É como procurar cabelo em ovo.

 

         Dinheiro aqui só sai aplicado

         Ou em forma de pagamento.

         Não para o entregador ferrado,

         Mas para o fornecedor nojento.

         Para nós, ele já vem contado,

         Aliás, já vem bem descontado

         No pneu, no aro, no rolamento...

 

Acontece um fato engraçado

Quando é dia de pagar geral:

Mazinho, “patrão” desgraçado,

É o primeiro a fugir do local.

Como se deixasse um recado,

Chega a ser até debochado:

É vergonha de pagar tão mal.

 

Dona Márcia, companheira,

Ouça com atenção o que digo:

Não seja a senhora a primeira

A só olhar para o seu umbigo.

Tenha piedade, seja verdadeira,

Conceda-nos alguma maneira

De se livrar de tanto castigo.

 

Se ponha em nosso lugar,

Pelo menos, por um segundo.

E pare de tanto nos explorar,

Entregador não é vagabundo.

Não é questão só de reclamar,

Aqui é onde se pode encontrar

As piores entregas do mundo.

 

         Tem a Mascarenha de Moraes,

         O suplício de todo entregador.

         A rua Assis Brasil não fica atrás,

         Tabajara, Chapéu... só causa dor.

         Botafogo, Leblon e distantes locais,

         Visconde de Albuquerque, quer mais?

         Um ser humano merece mais amor.

 

Chega de pagar peça quebrada!

Quando muitas vezes temos razão.

E parem com tanta tarefa pesada,

Como descarregar esse caminhão

E sair depois uma turma cansada.

Sem falar na atitude impensada

De nos descontar até garrafão.

 

         Entregador vive tudo cansado,

         Dorme igualmente uma cadela.

         Café da manhã é aquilo regado

         À base de pão com mortadela.

         Ganha pouco, é mal alimentado,

         A fraqueza tem como resultado

         Um funcionário “chêi de mazela”.

 

Exemplo disso, temos um nanico

Que fugiu lá da seca do Ceará.

Baixou no Rio pensando ficar rico,

Mas, como diz o ditado popular:

“Sonho de merda acaba no pinico”,

E naquela de “se vou ou se fico”,

Na Água Pura ele veio se lascar.

 

Eu levaria o meu tempo todo

Falando deste lugar estranho.

Não quero aprofundar nesse lodo

Senão daqui a pouco eu apanho.

Porém, quero apenas ressaltar,

A saúde vem em primeiro lugar;

Esse é o nosso maior ganho.

 

Vou finalizar esse meu lamento

Que se faz muito necessário,

Para lembrar aos quatro ventos

Que entregador não é otário.

Trabalha que só um jumento,

Nunca sabe o que é aumento

Nessa merreca de salário.          

                                                             RIO, ABRIL/2005                                     

 

O ÚLTIMO SUSPIRO

 

A minha vida é uma tristeza

Nada acontece, para variar.

E eu sequer tenho a certeza

Que alguma coisa vai mudar.

E, pra aumentar a frustração,

Trancaram-me nessa prisão,

Sem chances de me soltar.

 

Por Deus, o quê que eu fiz

         Para merecer tanto castigo?

         Nunca na vida fui tão infeliz,

É por isso que sempre digo:

Nenhum sofrimento é nobre,

         Tudo só sobra para o pobre,

Desamparado e sem abrigo.

 

A vida não pode esperar,

Eu quero a minha “alforria”

Para eu poder, então, viajar,

E só assim a minha alegria

Vai poder finalmente voltar.

Nunca mais vou me lembrar

De toda e qualquer agonia.

 

         Vivo em busca da felicidade

         E longe de qualquer tortura.

         Minha ambição, na verdade,

         Era ser um gari da Prefeitura.

         Mas, para minha infelicidade,

         Tanto trabalho nessa cidade,

         Vim parar logo na Água Pura.


As escolhas que nós fazemos

Nem sempre dão resultados.

Às vezes, nem chance temos,

Só apenas de ser humilhados.

Até porque trabalhar com crente

Que crê ser melhor que a gente,

Deixa o sujeito mais revoltado.

 

         Não há palavras de consolo

         Ou que me façam entender.

         Sou pobre, mas não sou tolo,

         E cego é quem não quer ver.

         É muito fácil para um cidadão

         Se esconder em uma religião,

         Com uma Bíblia sempre a reler.

  

Não sou nenhum ordinário,

Apenas um cara realista.

Até já me fizeram de otário,

Tentaram tapar minha vista...

Lamento a minha arrogância,

Mas de crente quero distância;

Estão fora da minha lista!

 

Mas voltando ao ponto inicial,

Um trabalho é uma conquista.

Ralando aqui só me dei mal,

E eu que já fui tão otimista...

Agora é meter a firma no pau,

Descolar um dinheiro legal

E procurar um bom analista.

 

Mais uma vítima da Água Pura

E que ainda não recobrou o tom.

Testemunha viva dessa loucura,

Das cansativas idas ao Leblon.

Um sobrevivente, herói e poeta,

Decidindo cair fora na hora certa,

Pois ainda lembra o que é bom.

  

         Naturalmente que o cansaço

         Tenha tomado conta de mim,

         Meu corpo é somente inchaço,

         Um sofrimento que não tem fim.

         Agora só restou-me o bagaço,

         O selim arrancou meu cabaço

         E vou levando a vida assim.

 

Foram mais de quarenta mil

As águas que eu entreguei,

Cada cliente, puta que pariu!

Velha chata, maluco, até gay.

Mas também, muita gente boa,

Inclusive, algumas “coroas”

Com as quais eu namorei.

 

         Neste depósito da Água Pura

         Baixa toda corja de gente: 

         O nanico, de baixa estatura,

         Alto, forte e até deficiente.

         Sem falar nos tipos imundos:

         Ladrão, traficante, vagabundo...

         A escória está toda presente!

  

Tudo quanto é cafajeste,

Mas também muito coitado,

Reprovado em qualquer teste

Ou pela vida abandonado.

Gente que vive na sarjeta

E que vem atrás da gorjeta;

Às vezes, sai decepcionado.

 

E a minha única ligação

Com esta empresa fodida

É só por conta da situação

Desta loja estar quase falida.

E pra aumentar meu stress

Eles sequer pagam o FGTS,

Um atraso para a minha vida.

 

Ainda que eu quisesse

Já não dava mais pra “ralar”.

Sentiu dor não esquece

E nem dá para ignorar.

É uma coluna dolorida,

A saúde comprometida;

Isso é o cúmulo do azar!

  

         Um homem que não mente

         Por vezes leva um tempão

         Para provar que está doente

         E sem a menor condição,

         De atender imediatamente

         À exigência de um cliente

         E em seguida, à do patrão.

 

Eu só quero agora me curar,

Dor nas costas não é moleza.

Nunca mais volto a trabalhar

E a enfrentar tamanha dureza.

Serviço bom para mim, talvez,

Só trabalhando metade do mês,

E não sofrendo nessa tristeza.

 

         Tou pensando em me “encostar”,

         Dar entrada na aposentadoria.

         Tirar o meu tempo para viajar,

         Esquecer de vez essa agonia.

         Lá na Paraíba, eu posso apostar,

         Nunca mais vou querer lembrar

         Que fui entregador algum dia.

                                                                           RIO,NOVEMBRO/2006


Entre fevereiro de 2003 a janeiro de 2009,

entreguei 41.613,5 águas trabalhando

como entregador na Água Pura / Leme / Rio