segunda-feira, 1 de julho de 2013

LEANDRO DE BARROS, O PIONEIRO DOS CORDÉIS


LEANDRO GOMES DE BARROS, O PIONEIRO DA LITERATURA DE CORDEL

       Leandro Gomes de Barros nasceu no Estado da Paraíba, em 19/11/1865, na Fazenda da Melancia, município de Pombal. É considerado o patrono da Literatura popular em versos, o primeiro a publicar, editar e vender seus poemas. 
    Autor de vários clássicos da Literatura de Cordel e campeão absoluto de vendas, com alguns folhetos que ultrapassam a casa dos milhões de exemplares vendidos, fora denominado de "O Primeiro sem Segundo", o maior poeta popular do Brasil de todos os tempos. Estima-se que a vasta produção literária de Leandro, iniciada em 1889, no estado de Pernambuco, atinge cerca de 600 títulos, dos quais foram tiradas mais de 10 mil edições.                                        
Foi educado pela família do Padre Vicente Xavier de Farias (1823-1907), proprietários da fazenda onde nascera, e dos quais era sobrinho por parte de mãe. Em companhia dessa sua família "adotiva", acabou mudando-se para a Vila do Teixeira, a qual se tornaria mais tarde o berço da Literatura Popular nordestina. Nela permaneceu até os 15 anos de idade, tendo conhecido ali vários cantadores e poetas ilustres da época.                                                                       
Do Teixeira vai para Pernambuco e fixa residência primeiramente em Jaboatão, onde morou até 1906, depois em Vitória de Santo Antão e a partir de 1907, no Recife, onde viveu de aluguel em vários endereços. Casou-se com Venustiniana Eulália de Barros, com quem teve quatro filhos.                                    
Sua atividade poética o obrigava a viajar bastante pelos sertões para divulgar e vender seus poemas, os quais eram impressos, em grande parte, no próprio prelo ou em diversas tipografias. Entretanto, depois de fundar uma pequena gráfica, em 1906, seus folhetos se espalharam ainda mais pelo Nordeste, sendo considerado pelo historiador Câmara Cascudo como o mais lido entre os escritores populares.                                                                  
 Compôs obras-primas que eram utilizadas em obras de outros grandes autores, como por exemplo, Ariano Suassuna, que utilizou a história do cavalo que estercava dinheiro no seu "Auto da Compadecida".                                              
Há duas versões para sua morte: a primeira é que ele teria sido vítima da epidemia da gripe Influenza Espanhola, a qual, inclusive, ele chegou a tratar em um de seus folhetos. A segunda hipótese afirma que nessa data, 1918, Leandro teve um folheto proibido pela polícia pernambucana – A Palmatória e o Punhal – trama em que ele narra um crime ocorrido entre um trabalhador que se vinga do senhor de engenho.                                                                                  
Segundo o romancista Permínio Ásfora, Leandro Gomes de Barros teria sido preso porque o chefe de polícia considerou uma afronta às autoridades alguns dos versos desta obra. Por ser um homem honrado e sentindo-se humilhado com a prisão, acabou falecendo.
                                                                                                   Paulo A. Vieira

 

História da donzela Teodora (Cordel), de Leandro Gomes de Barros

      
        Leandro Gomes de Barros, poeta criativo, recriou História da Donzela Teodora numa versão brasileira com uma produção bastante significativa, de grande divulgação e recepção.        
          No Brasil, a tradicional estória de Teodora, donzela-escrava-sábia-bela, que venceu os sábios do rei, livrando o seu amo da falência, cujas origens mais remotas são árabes, vem atravessando os tempos e encantando o nosso povo, notadamente no Nordeste brasileiro.        
        Composta poeticamente em sextilhas, nota-se na relação narrador-leitor (inicial e final), como Leandro, com grande poder de síntese e lisura, não esconde as fontes européias que lhe inspiraram a recriação poética do folheto luso em prosa (tradução do pliego suelto espanhol):
 

"Eis a real descrição                        “Caro leitor escrevi
da história da donzela                 
     tudo que no livro achei
dos sábios que ela venceu                só fiz rimar a história
e a aposta ganha por ela      
           
 nada aqui acrescentei
tirado tudo direito                             na história grande dela (...)
da história grande dela (...)        
     muitas coisas consultei"

    A sedutora narrativa dessa incomum donzela tem, em síntese, a seguinte fabulação: um negociante compra uma donzela e manda educá-la. Rapidamente ela torna-se muito sábia. Tendo o mercador perdido sua riqueza, ela propõe que tente vendê-la ao rei. Depois de ricamente vestida, eles vão ao palácio e a donzela enfrenta três sábios que lhe testam os conhecimentos, derrotando-os. O terceiro quase se vê nu, como haviam apostado, mas paga em dinheiro. O rei lhes dá o dinheiro pedido e eles vão para casa.

Introdução: O narrador introduz a descrição-narração.

Situação inicial: compra da donzela (escrava) pelo bom e rico mercador; exaltação às qualidades da Donzela: fidalga, espanhola e bela; o mercador manda educá-la e ela se torna excepcionalmente sábia.

Situação de desequilibro: falência do mercador.
        
      Contrato 1: Proposta da Donzela - ser vendida ao Rei Almançor para salvar seu amo da falência.

Contrato 2: Contraposta do Rei - disputa entre Teodora (mulher-escrava) e os três sábios do Rei (homens letrados).

Primeira prova: A Donzela enfrenta e vence o primeiro sábio. Consequência glorificante para Teodora e deceptiva para o sábio.


Segunda prova: a Donzela enfrenta e vence o 2º sábio. Conseqüência glorificante para ela e deceptiva para o segundo sábio.     


Contrato 3: Aposta entre Teodora e o terceiro sábio (Abraão de Trabador): O vencido ficará despido como nasceu.  


Terceira prova: Donzela versus Abraão de Trabador. (Consequência glorificante para Teodora e deceptiva para ele que fica semi-despido, apenas, pagando à Donzela o acréscimo de cinco mil dobras de ouro).     


Contrato 4: palavra de honra do Rei (dar à Donzela o que esta lhe pedir).     



Prêmios: O Rei dá à Teodora mais dez mil dobras de ouro; a donzela-escrava e seu amo regressam ricos e felizes para casa. 

A História da Donzela Teodora faz uma viagem no imaginário popular do fim do século XIX, início do século XX, sobre a mulher moderna, alguém formosa, bem formada e com substância de conteúdo; a sabedoria. É realista, pois a mulher, como na sociedade atual, ainda é tratada como objeto de troca, vendida como mercadoria. Teodora supera a escravidão através do seu talento e estudos, levando a refletir sobre a igualdade de gênero. No final, ao negar a corte do rei, prefere ficar com o senhor que lhe trata como filha, fazendo, da mesma maneira, refletir sobre a liberdade.
A estrutura profunda, formada pelas antinomias básicas (SABEDORIA x IGNORÂNCIA; JUSTIÇA x INJUSTIÇA e HONRA x DESONRA) que são de caráter universal, associadas aos traços marcantes da oralidade, à recorrência aos enigmas e adivinhações, ao processo de escritura e reescritura, vêm assegurando a permanência dessa sedutora estória, independentemente das peculiaridades regionais das diferentes comunidades (espanhola, portuguesa e brasileira) por onde ela tenha traçado uma trajetória.
          

Um comentário:

  1. Excelente post. Serve, inclusive, para quem deseja fazer alguma pesquisa.

    ResponderExcluir