sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

PERFIL BIOGRÁFICO DE JOÃO DE CARMINHO: POSTAGEM ESPECIAL/ 5 ANOS DESTE MEU BLOG LITERÁRIO


Hoje, 18 de dezembro de 2015, há exatos cinco anos iniciei este Blog, um trabalho que eu esperava render por apenas um ano ou, talvez, um pouco mais. No entanto, não parei mais de produzir material para as publicações aqui realizadas, sejam artigos, textos literários, cordéis, poesias diversas, entre outros.
Um ano atrás, nesse mesmo dia, publiquei aqui o cordel que escrevi sobre a vida de João de Carminho, uma pequena biografia em versos sobre um dos homens mais valentes que a cidade de Queimadas já conheceu. Hoje, portanto, estou postando aqui o perfil biográfico que escrevi sobre João de Carminho e que gerou esse cordel, um texto mais detalhado e que inclusive, foi publicado no livro do professor Ezequiel Lopes, lançado recentemente. 

HISTÓRIAS E MITOS DE JOÃO DE CARMINHO: UMA PERSONAGEM DO IMAGINÁRIO QUEIMADENSE
                                                                           por Paulo Seixas
Uma das figuras folclóricas mais notórias e também mais temidas de toda a história queimadense, João de Carminho, como era popularmente conhecido João Batista Barbosa, nasceu neste mesmo município, na comunidade do sítio Riacho do Meio, em 22 de novembro de 1922. Filho de Manoel do Carmo Barbosa - Seu Carminho - e de Sebastiana Ermínia do Carmo, João viveu toda a sua infância e adolescência na fazenda da família (a qual se mantém até hoje, em parte, preservada), convivendo com mais outros dez irmãos.
Dono de uma personalidade forte e bastante viril, o seu temperamento “hostil” e a sua fama de homem valente e brigão se espalharam rapidamente por toda a região e circunvizinhanças, transformando-o ainda jovem em uma lenda viva. Uma pessoa que, segundo consta, não gostava de ser contrariada. Era temido por suas atitudes bastante audaciosas, embora nem sempre tão louváveis, com histórias que envolviam todo um universo de bravuras e intrepidez. De acordo com os seus familiares mais próximos, durante sua mocidade ele fora um exímio cavaleiro (reza a lenda, ele saltava porteiras fechadas a galope) e ainda um grande corredor de vaquejadas, um jovem impetuoso, aventureiro e de uma energia sem limites, valorizando, sobretudo, as coisas do campo.
          De família nobre, tradicionalmente religiosa e de muitas posses, isso lhe permitia gozar de uma situação financeira confortável, desfrutando de uma vida cômoda nos idos das décadas de 1940 e 1950. Frequentou a escola e cursou o equivalente hoje ao ensino fundamental, porém não seguindo adiante nos estudos. Entretanto foi a sua paixão pelos esportes, em especial, pelo fisiculturismo, que o levou em busca de novos horizontes. Inclusive, chegou a fazer parte da equipe de desporto da Marinha, no antigo Estado da Guanabara, Rio de Janeiro, onde teve contato direto com pessoas importantes da esfera política. Dessa forma, passou a vestir o uniforme branco das forças armadas, sendo um militar efetivo da Marinha durante, pelo menos, quatro anos de sua vida.
Segundo algumas pessoas que conviveram com João de Carminho, ele era um homem de moral e de muito respeito, especialmente com as mulheres. Uma pessoa que, acima de tudo, sabia como ninguém conservar amizades importantes, procurando manter um vínculo estreito com os cidadãos influentes do lugar. Por outro lado, há aqueles que defendem a ideia de que ele não passava, na verdade, de um grande desordeiro, um “play boy” de sua época e causador de confusões. Opiniões antagônicas, este é um assunto que quase sempre gerou controvérsias, embora muitos concordem com o fato de que, a maioria de suas brigas - onde geralmente ele era provocado - se dava pelo consumo excessivo de álcool. O álcool foi, talvez, a sua única e verdadeira fraqueza, dominando-o em boa parte de sua vida.
Pelo que se sabe, João de Carminho era o tipo de pessoa que não temia ninguém e que jamais levava desaforos para casa, seja por qual motivo fosse. Se necessário, comprava até brigas, enfrentando mais de um homem em luta corporal, sempre em defesa da honra e da família. Por várias vezes atentaram contra sua vida, marcando o seu corpo com diversas cicatrizes de perfurações e cortes.
Em analogia aos versos de Amazan, João de Carminho até poderia se identificar em alguns trejeitos com a personagem fictícia de Tranca-rua, um estereótipo criado pelo poeta exatamente para descrever esse tipo de perfil. Figuras que num passado não muito distante conseguiam se impor em meio à sociedade (seja através do medo ou mesmo pelo respeito), principalmente nas comunidades rurais, “amedrontando” pessoas devido ao seu porte físico ou mesmo pela habilidade com armas.

“Tranca-rua era um cabôco
Com dois metro de altura,
Os braço era aqueles toco
As perna dessa grossura (...)
De forma que a cidade
Num tinha tranquilidade
No dia qu’ele bebia,
Pois quando se embriagava
Dava a gôta, bagunçava
E prendê-lo ninguém podia.”

De fato, a simples presença de João de Carminho em certos lugares fazia muita gente tremer, um homem cujo aspecto corporal era bastante avantajado, e por isso mesmo chegava até a intimidar. Praticante de exercícios um tanto puxados, durante toda vida procurou manter sua boa forma física através de levantamento de pesos, utilizando alguns halteres artesanais que seriam impensáveis para um homem comum. Além de sua enorme agilidade e destreza com armas de fogo - herança de sua época enquanto militar - o que o transformava em um eminente atirador, possuidor de uma excelente pontaria. Apesar de que, segundo afirmações seguras de familiares, parentes e amigos mais próximos que conviveram com João, ele nunca assassinou ninguém, contrariando a ideia de que pudesse vir a ser um pistoleiro.
Justamente por conta do seu comportamento imprevisível, por vezes agressivo e um tanto fora dos padrões, várias histórias começaram a surgir em torno de seu mito, especialmente após a sua morte. E não são poucas, onde boa parte delas enaltece a sua figura, enquanto outras o colocam em pé de igualdade com um bandido, um fora da lei. Entretanto, a maioria dessas narrativas são distorcidas ou simplesmente fantasiosas, verdadeiros absurdos e que, pouco a pouco, vêm sendo desmistificadas.
Há alguns relatos, por exemplo, de que João de Carminho invadia casas durante festas de casamentos, sempre montado em seu cavalo, numa atitude de afrontamento e de total desrespeito aos presentes. E o que era pior, de acordo com algumas histórias levantadas e até hoje propagadas pelo povo, ele sequestrava a mulher recém casada com a qual mantinha, à força, relações íntimas durante uma noite (como o faziam os antigos cangaceiros), devolvendo-a no dia seguinte para o marido inconformado. No entanto, esse é o tipo de história incoerente e que não procede, indo de encontro com o seu histórico de relações pessoais e afetivas.
Contudo, a ideia de que pudesse forçar mulheres para ficar com ele é algo que não ficaria completamente descartado, podendo ter surgido, talvez, de algum acontecimento isolado e do qual ninguém nunca ousou testemunhar. Possivelmente, em algum momento infeliz de sua vida, no qual se encontrava sob efeito do álcool e não agindo de acordo com os seus verdadeiros princípios. Ainda assim, segundo declarações de parentes e amigos, João de Carminho jamais cometeria coisa parecida, até pelo seu reconhecido caráter e pela consideração que ele demonstrava perante as mulheres. Pelo contrário, o mais provável é que ele procurasse defender a honra delas, uma vez que fossem desrespeitadas ou molestadas por alguém. Portanto, são histórias como essas que caem por terra à medida que, em seu estado normal, ele jamais agiria de tal modo.
Outras histórias, no entanto, envolvendo desordens de todo gênero e confusões originadas principalmente por embriagues, podem facilmente ser comprovadas, levando em conta as condições e a precariedade da justiça na época. Um tempo em que pessoas influentes e prestigiadas como João de Carminho podiam circular armadas por todo lugar (uma vez que ele possuía porte), raramente respondendo a um processo judicial, exceto quando se tratava de algum crime ou incidente maior. Isso não mudou muito até hoje.
Inclusive, o evento mais tradicional de Queimadas, a Festa de Reis, que acontece anualmente entre os dias 05 e 06 de janeiro, fora palco de vários tumultos e arruaças provocadas por João de Carminho. Que a verdade possa ser dita. Uma dessas confusões ganhou destaque, quando ele enfrentou no braço um bando enorme de homens, saindo bastante machucado e perdendo até mesmo um pedaço de sua orelha. Ainda de acordo com depoimentos de pessoas dessa época, quando ele decidia que iria aprontar na festa o aviso corria bem depressa, gerando certo suspense na população e fazendo com que muitos sequer se arriscassem a comparecer nessa noite. Haja vista que, durante muito tempo, esse evento trouxe consigo uma justa fama de perigoso, onde inúmeras brigas, “acertos de contas” e óbitos eram bem frequentes.  
A cidade de Campina Grande, em especial, também registrou algumas das inúmeras confusões causadas por João, com episódios marcados por bebedeiras e por certa violência, embora não conseguissem tirar dele a credibilidade e a estima de quem o conhecia. Porém, depois de certa idade e principalmente, devido à sua condição de casado, João de Carminho afastou-se mais da vida boêmica, dos amigos de farras, passando a comparecer com menos frequência nos bares da vida. A certa altura da vida, precisamente entre as décadas de 1960 e 1970, João passou a fazer viagens para o Rio de Janeiro na companhia de seu pai, transportando pessoas em um caminhão do tipo “pau de arara”, dividindo-se entre o trabalho, a família e algumas pequenas criações de animais.
No dia 20 de novembro de 1976, numa tarde de sábado, o ex-policial militar mais conhecido pelo nome de Edvaldo, abordou João de Carminho na esquina das ruas centrais de Queimadas, Eunice Ribeiro e João Barbosa da Silva, assassinando-o com cinco tiros à queima roupa. Na ocasião, ele ainda chegou a ser socorrido pelo saudoso “Biu carcereiro” que, à época, trabalhando na delegacia local sob o mandato do Delegado Manoel Rodrigues, possuía um veículo da marca Jipe. Contudo, de nada isso adiantou. A morte instantânea foi confirmada, sendo o corpo conduzido até a fazenda de seus pais, bem próximo de onde ele residia àquela época.
João de Carminho faleceu a dois dias de completar 54 anos de idade, deixando cinco filhos do seu casamento com Maria José de Albuquerque Barbosa, natural do sítio Capivara, no município de Queimadas. E, pelo menos, mais outros quatro filhos de relacionamentos anteriores e mesmo posteriores, uma vez que ele havia se separado alguns anos antes de vir a falecer. Oficialmente ele fora casado uma única vez.
As suspeitas de sua morte permaneceram envoltas em mistério durante muito tempo, um crime com conotações pessoais e políticas. O assassino, foragido por quase vinte anos, foi a julgamento em 1996, alguns meses antes do crime prescrever. Embora tendo sido absolvido, ficou clara a hipótese de que houvera um mandante para este homicídio.

                                                                          Queimadas, junho/2014


Um comentário:

  1. Li também o seu cordel. Muito boa essa iniciativa de resgatar um mito da história de Queimadas, como João de Carminho. Parabéns!!

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