NA “ÁGUA PURA” É ASSIM...
Há
trabalho que se suporte,
Outros
do tipo “ainda se atura”.
Há
trabalhos que levam à morte
Ou
que fazem beirar a loucura.
Portanto,
se você é um fracote
Não
procure desafiar sua sorte
Trabalhando
na Água Pura!
Um serviço um tanto arriscado
De
tão pesado, até desespera.
Imagine
um triciclo quebrado
Descendo
a mil numa banguela;
Pode
deixar o sujeito acamado,
Com
a cabeça e crânio rachado,
Além
de quebrar umas costelas.
Uma
fábrica de gerar doente,
Seja
peladura ou arranhão.
Coluna
não há quem aguente,
É
muito esforço e contusão.
E,
pra surpresa de muita gente,
Ainda
se pode ficar contente
Quando
não quebra garrafão.
Para
cada garrafão quebrado
Eis
que surge a cena ingrata;
No
salário já vem descontado
Pelo
patrão sangue de barata.
Esse
é o veredicto e atestado,
O
entregador sendo maltratado
Tal
qual um cachorro vira-lata.
Nem Jesus Cristo no calvário
Sofreu tamanha humilhação.
Em sua época não havia otário
Que trabalhasse por comissão;
O justo deveria ser um salário,
Um ganho mínimo e necessário,
E porcentagem em cada galão.
Pra
compensar o trabalho extra
Que
há de sempre aparecer,
Desacompanhado
de gorjeta,
Fazendo
um entregador sofrer.
De segunda-feira
até a sexta,
Lavar
garrafão de madame besta
Sem ganhar
“caixinha” é de doer.
É a
caixinha que fortalece
O
salário de um trabalhador.
Tem
gente que até esquece
Do
direito de um entregador,
Que
ajeita, afaga e agradece,
Que
faz por onde e merece
Uma
moeda de qualquer valor.
Lembrando
aqui uma raça
Existente
no Rio de Janeiro,
Certamente
a pior desgraça
Que
abrange o mundo inteiro.
Nenhum
entregador aguenta
Essa
raça sovina e avarenta
Conhecida por “pirangueiro”.
É um
miserável que faz conta
Da
moedinha de um centavo.
Esse
merece levar uma ponta,
Não
passa de um corno safado.
Um
filha da puta, um “mindingo”,
Deixa
de ir à missa aos domingos
Para
não ter que dar um trocado.
Pode
parecer mesmo loucura
Trabalhar
em um lugar assim.
Ser
entregador na Água Pura
É
buscar pelo seu próprio fim.
Como
tempo mal, sem fartura,
Um trabalho
que é a mistura
Daquilo
que há de mais ruim.
Mas o diabo que se condena
Não é tão feio como se pinta.
Tem dias que até vale a pena
Fazer entregas, não se minta:
Mas, que seja só até Ipanema.
Com algum feriado em cena,
Ou que o mês seja de trinta.
Um trabalho
sem fiscalização,
Talvez
por isso até seja bom.
Ruim
é descarregar caminhão,
Ir para
Botafogo ou Leblon.
São
as exigências do patrão,
Como
ter que limpar o chão,
Uma
invenção do Seu Ision.
Sem
essa de lavar banheiro,
Entregador
não é escravo.
Isso
é serviço de faxineiro
E
pra isso ninguém é pago.
É
trabalho para o mês inteiro,
Acrescentem
mais dinheiro,
Ou a
faxina ficará de lado.
É
do Mazinho tal obrigação,
Não
faz nada o dia inteiro,
Só
vive a soprar garrafão,
Em
perturbação é o primeiro.
Pigmeu
de academia, anão,
Seu
diploma de musculação
Procure
usar no banheiro.
Um
entregador que se preza
Vive
reclamando a toda hora.
Pede
acordo, chora, até reza,
Implora
para poder ir embora
Ao
patrão que o menospreza.
Desiludido,
a Deus despreza,
Rogando
ao diabo a melhora.
Até
porque ser despedido
Isso
é caso de muita luta,
Nem
que ele tenha ofendido
Algum
cliente filha da puta.
No
entanto, vem logo o castigo,
Um
“Leblon” bem sacudido
Como
uma espécie de multa.
Não é à toa que um fulano
Que sequer vem trabalhar,
Consegue ficar quatro anos
“Empregado” neste lugar.
Aqui se aceita todo mundo,
Safado, vigarista, vagabundo,
Basta apenas saber pedalar.
O
sofrimento só é constante
Para
quem decide encarar.
Aquele
novato, ou iniciante,
A
qualquer hora pode rodar.
Somente
a carteira assinada
É uma
garantia confirmada
De
quem pretende bagunçar.
Alguns
sequer completaram o dia.
Mas,
em sua passagem deixaram
Um
rastro de sangue e agonia.
Hoje,
enfim, os que escaparam
Ou
estão loucos ou se deparam
Em
alguma sala de psiquiatria.
Dos
que começaram o ano
Resta
a metade da demanda.
Tem
o velho Jorge do Turano,
O
Karlão da Nova Holanda
E
o Marcelo Manjubinha,
Um
morador lá da Rocinha
Que
“faz água” pra caramba.
Tem
o “Berone” Marcha-Lenta
Trabalhando
como clandestino,
Haroldo
Bucha, quem aguenta?!
Só
sabe mesmo viver dormindo.
E o André, sujeito sem futuro,
Uma
briga de foice no escuro
É
mais bonita do que ele rindo.
E,
óbvio, o narrador destes fatos
Que
não se esconde na história.
Testemunha
ocular de alguns atos
Que
haverão de ficar na memória.
E que
jamais esquecerá a loucura
De
haver pisado na Água Pura
Uma
prisão sem escapatória.
No fim, a liberdade prevalece,
Apesar de muito a se lamentar.
Ralou na Água Pura não esquece,
Vez ou outra se pensa em voltar.
Castigo que ninguém merece,
Porém, a gorjeta que fortalece
É um incentivo para retornar.
Dê
seu sangue por este lugar
Que
haverá de se arrepender.
Faça
o seu nome se destacar
Que só
vão fazer você sofrer.
Mas,
se ficar em 1º no placar
Não
venha depois se lamentar
Das
dores que irão lhe ocorrer.
RIO,
JUNHO/2003
LAMENTO DE UM ENTREGADOR
Portanto,
continuar a trabalhar,
Encarar
todo dia a “Água Pura”,
A
minha vida nunca vai melhorar,
Só
vai cultivar minha amargura.
O
meu ódio sim, vai aumentar,
E o
meu tédio ainda vai acabar
Levando-me
às vias da loucura.
Uma
empresa que não respeita
Seus
empregados e seus valores,
Que
não tá nem aí pras caretas
Que
denunciam as nossas dores,
Merece
é passar pela caneta
Daquele
homem da capa preta,
Da
beca desprovida de cores.
Ao
longo desses quase quatro anos
Há
muito cheguei numa conclusão:
É
algo contra os direitos humanos,
Subir
morro e descarregar caminhão.
Ipanema,
Leblon, afetam nosso juízo,
Ralar
nesse caminhão causa prejuízo,
Seja
na coluna ou ter que pagar galão.
Isso
é uma grande sacanagem,
Entregador
também tem direito.
50
centavos de porcentagem
Para
realizar todo esse feito,
É melhor
jogar na vida do crime.
Porque
fazer parte desse time
Tem
que ter o juízo imperfeito.
Continuando a falar de dinheiro
Que é a maior alegria do povo,
Por sinal, desse mundo inteiro,
Isso não é um pensamento novo,
Na Água Pura ele é “forasteiro”:
Ninguém sabe do seu paradeiro,
É como procurar cabelo em ovo.
Dinheiro
aqui só sai aplicado
Ou
em forma de pagamento.
Não
para o entregador ferrado,
Mas
para o fornecedor nojento.
Para
nós, ele já vem contado,
Aliás,
já vem bem descontado
No
pneu, no aro, no rolamento...
Acontece
um fato engraçado
Quando
é dia de pagar geral:
Mazinho,
“patrão” desgraçado,
É o
primeiro a fugir do local.
Como
se deixasse um recado,
Chega
a ser até debochado:
É vergonha
de pagar tão mal.
Dona
Márcia, companheira,
Ouça
com atenção o que digo:
Não
seja a senhora a primeira
A
só olhar para o seu umbigo.
Tenha
piedade, seja verdadeira,
Conceda-nos
alguma maneira
De
se livrar de tanto castigo.
Se
ponha em nosso lugar,
Pelo
menos, por um segundo.
E pare
de tanto nos explorar,
Entregador
não é vagabundo.
Não
é questão só de reclamar,
Aqui
é onde se pode encontrar
As
piores entregas do mundo.
Tem
a Mascarenha de Moraes,
O
suplício de todo entregador.
A rua
Assis Brasil não fica atrás,
Tabajara,
Chapéu... só causa dor.
Botafogo,
Leblon e distantes locais,
Visconde
de Albuquerque, quer mais?
Um
ser humano merece mais amor.
Chega de pagar peça quebrada!
Quando muitas vezes temos razão.
E parem com tanta tarefa pesada,
Como descarregar esse caminhão
E sair depois uma turma cansada.
Sem falar na atitude impensada
De nos descontar até garrafão.
Entregador
vive tudo cansado,
Dorme
igualmente uma cadela.
Café
da manhã é aquilo regado
À
base de pão com mortadela.
Ganha
pouco, é mal alimentado,
A
fraqueza tem como resultado
Um
funcionário “chêi de mazela”.
Exemplo
disso, temos um nanico
Que
fugiu lá da seca do Ceará.
Baixou
no Rio pensando ficar rico,
Mas,
como diz o ditado popular:
“Sonho
de merda acaba no pinico”,
E
naquela de “se vou ou se fico”,
Na
Água Pura ele veio se lascar.
Eu
levaria o meu tempo todo
Falando
deste lugar estranho.
Não
quero aprofundar nesse lodo
Senão
daqui a pouco eu apanho.
Porém,
quero apenas ressaltar,
A
saúde vem em primeiro lugar;
Esse
é o nosso maior ganho.
Vou
finalizar esse meu lamento
Que
se faz muito necessário,
Para
lembrar aos quatro ventos
Que
entregador não é otário.
Trabalha
que só um jumento,
Nunca
sabe o que é aumento
Nessa
merreca de salário.
RIO,
ABRIL/2005
O ÚLTIMO SUSPIRO
A
minha vida é uma tristeza
Nada
acontece, para variar.
E eu
sequer tenho a certeza
Que
alguma coisa vai mudar.
E,
pra aumentar a frustração,
Trancaram-me
nessa prisão,
Sem
chances de me soltar.
Por
Deus, o quê que eu fiz
Para merecer tanto castigo?
Nunca na vida fui tão infeliz,
É
por isso que sempre digo:
Nenhum
sofrimento é nobre,
Tudo só sobra para o pobre,
Desamparado
e sem abrigo.
A
vida não pode esperar,
Eu
quero a minha “alforria”
Para
eu poder, então, viajar,
E só
assim a minha alegria
Vai
poder finalmente voltar.
Nunca
mais vou me lembrar
De
toda e qualquer agonia.
Vivo
em busca da felicidade
E
longe de qualquer tortura.
Minha
ambição, na verdade,
Era
ser um gari da Prefeitura.
Mas,
para minha infelicidade,
Tanto
trabalho nessa cidade,
Vim parar logo na Água Pura.
As escolhas que nós fazemos
Nem sempre dão resultados.
Às vezes, nem chance temos,
Só apenas de ser humilhados.
Até porque trabalhar com crente
Que crê ser melhor que a gente,
Deixa o sujeito mais revoltado.
Não
há palavras de consolo
Ou que
me façam entender.
Sou
pobre, mas não sou tolo,
E
cego é quem não quer ver.
É
muito fácil para um cidadão
Se
esconder em uma religião,
Com
uma Bíblia sempre a reler.
Não
sou nenhum ordinário,
Apenas
um cara realista.
Até
já me fizeram de otário,
Tentaram
tapar minha vista...
Lamento
a minha arrogância,
Mas
de crente quero distância;
Estão
fora da minha lista!
Mas
voltando ao ponto inicial,
Um
trabalho é uma conquista.
Ralando
aqui só me dei mal,
E
eu que já fui tão otimista...
Agora
é meter a firma no pau,
Descolar
um dinheiro legal
E
procurar um bom analista.
Mais
uma vítima da Água Pura
E
que ainda não recobrou o tom.
Testemunha
viva dessa loucura,
Das
cansativas idas ao Leblon.
Um
sobrevivente, herói e poeta,
Decidindo
cair fora na hora certa,
Pois
ainda lembra o que é bom.
Naturalmente
que o cansaço
Tenha
tomado conta de mim,
Meu
corpo é somente inchaço,
Um
sofrimento que não tem fim.
Agora
só restou-me o bagaço,
O
selim arrancou meu cabaço
E
vou levando a vida assim.
Foram mais de quarenta mil
As águas que eu entreguei,
Cada cliente, puta que pariu!
Velha chata, maluco, até gay.
Mas também, muita gente boa,
Inclusive, algumas “coroas”
Com as quais eu namorei.
Neste
depósito da Água Pura
Baixa
toda corja de gente:
O
nanico, de baixa estatura,
Alto,
forte e até deficiente.
Sem
falar nos tipos imundos:
Ladrão,
traficante, vagabundo...
A
escória está toda presente!
Tudo
quanto é cafajeste,
Mas
também muito coitado,
Reprovado
em qualquer teste
Ou
pela vida abandonado.
Gente
que vive na sarjeta
E que
vem atrás da gorjeta;
Às
vezes, sai decepcionado.
E
a minha única ligação
Com
esta empresa fodida
É só por conta da situação
Desta
loja estar quase falida.
E
pra aumentar meu stress
Eles
sequer pagam o FGTS,
Um
atraso para a minha vida.
Ainda
que eu quisesse
Já
não dava mais pra “ralar”.
Sentiu
dor não esquece
E
nem dá para ignorar.
É uma
coluna dolorida,
A
saúde comprometida;
Isso
é o cúmulo do azar!
Um
homem que não mente
Por
vezes leva um tempão
Para
provar que está doente
E
sem a menor condição,
De
atender imediatamente
À
exigência de um cliente
E em
seguida, à do patrão.
Eu só quero agora me curar,
Dor nas costas não é moleza.
Nunca mais volto a trabalhar
E a enfrentar tamanha dureza.
Serviço bom para mim, talvez,
Só trabalhando metade do mês,
E não sofrendo nessa tristeza.
Tou
pensando em me “encostar”,
Dar
entrada na aposentadoria.
Tirar
o meu tempo para viajar,
Esquecer
de vez essa agonia.
Lá
na Paraíba, eu posso apostar,
Nunca
mais vou querer lembrar
Que fui entregador algum dia.
RIO,NOVEMBRO/2006
Entre fevereiro de
entreguei 41.613,5 águas trabalhando
como entregador na Água Pura / Leme /
Rio

Nenhum comentário:
Postar um comentário