quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

ARTIGO DE OPINIÃO/CRÔNICA

O LIXO SONORO DE CADA DIA

          Contrariando o que dissera RENATO RUSSO em uma de suas canções, Esperando por mim, não seria a solidão, mesmo em todo seu potencial, o mal do século. Em algumas circunstâncias, talvez até venha a sê-lo. Porém, sabemos que esta é uma visão bastante romântica e um tanto poética do artista.
         Além do mais, um enorme benefício proporcionado pela solidão, certamente o maior deles, é exatamente na questão que se refere ao silêncio, algo que, infelizmente, encontra-se cada vez mais escasso, impraticável nos dias de hoje. Em especial, nas áreas urbanas e de maior concentração de pessoas.
         Não bastasse o barulho natural existente nos grandes centros, ocasionado por uma série de fatores inevitáveis, pertinentes nesses meios, também virou moda o fato de todo mundo agora querer fazer a sua “zoada” particular, sem importar-se de maneira alguma com as atitudes e consequências de seus atos. Eis aqui, portanto, o mal do século XXI.
        Seja num final de semana, quando se reúne toda uma “galera” em volta de uma laje, a fim de providenciarem um churrasco e o consumo indiscriminado de cerveja, em festinhas que costumam atravessar a noite inteira. Ou mesmo no dia a dia, nos lares comuns, onde muitos indivíduos cultivam o péssimo hábito de ouvirem suas músicas em volumes altíssimos, contribuindo da mesma forma com a perturbação da lei e da ordem.
         Para tanto, são necessárias apenas duas ferramentas fundamentais: um aparelho de som “turbinado” e, na maioria absoluta das vezes, a falta de respeito e de consideração para com os vizinhos e demais pessoas. Isso sem falar nos meios alternativos e até automotivos de se gerar barulho, motivos que nos fazem enxergar um futuro nada promissor nesse sentido.
          Ao entrarmos em um ônibus ou em qualquer outro meio de transporte coletivo, normalmente a primeira coisa com a qual nos deparamos agora é com um sujeito sem educação ouvindo músicas em um aparelho de celular infernal, invadindo descaradamente o espaço do passageiro ao lado. E aquilo para ele é algo tão natural como se estivesse na sala de sua própria casa.
        Um automóvel hoje em dia já não é apenas e tão somente um simples meio de transporte. Ele pode ser, ao mesmo tempo, um carro e também um barulhento “trio elétrico baiano”. Sensação em bares e ambientes desse tipo, costuma comportar em seu porta-malas um equipamento de som que, por vezes, supera o próprio valor do veículo.
           Por outro lado, próximo a um desses barzinhos da vida, encontra-se muitas vezes um vizinho que necessita dormir, descansar após atravessar algum plantão noturno no trabalho. Ou talvez, um idoso com problemas de saúde, uma criança recém nascida, e até mesmo, um estudante que precisa de silêncio para concentrar-se nos estudos.
         A ausência gritante de educação e de bom senso em alguns indivíduos (bem como de leis mais rígidas e menos tolerantes), é que leva um sujeito à conclusão de que, quanto mais barulho difundido, mais rápida será sua ascensão entre aqueles que “rezam” na mesma cartilha, ou que se “lambuzam” na mesma lama. Essa é a nova moda que tanto incomoda, a provocação, a falta de limites baseada nos exageros da bebida e até das drogas.
            E, ao que parece, não há nada mais deprimente que o nível e a qualidade de música propagada por essa gente, um verdadeiro “lixo sonoro”. Na sua grande maioria, não passam de paródias bizarras de músicas americanas (nenhuma novidade aparente), versões infelizes de sucessos internacionais outrora difundidos na novela das oito. E o que é pior: tem público cativo. Um verdadeiro retrocesso cultural e no que se refere ao bom gosto.
       Se procurarmos observar algumas das composições próprias de bandas da atualidade, especificamente do norte e nordeste brasileiro, veremos que elas seguem praticamente o mesmo nível, geralmente fundamentadas em letras horríveis e de duplo sentido, acompanhadas ainda de melodias chinfrins ou “surrupiadas” de outras músicas. Como diria os TITÃS, ninguém perde por esperar; A MELHOR BANDA DE TODOS OS TEMPOS DA ÚLTIMA SEMANA já encontra-se no forno, prontinha para saciar a fome musical daqueles que não exigem muito no requisito qualidade.
         Uma canção romântica há muito é vista como uma música brega. Um artista renomado como ROBERTO CARLOS, por exemplo, tem menos audiência agora do que aquela cantora de corpo escultural, a qual grita mais do que propriamente canta. Sem contar que ela consegue a proeza de fazer até LUIZ GONZAGA, o rei do baião, remexer-se lá no túmulo. Sim, mas de raiva, por ver mancharem a reputação de um ritmo tão tradicional e popular como o forró, o qual ele ajudara talentosamente a difundir.
        Diante dessa inversão de valores, desse caos sonoro e musical no qual nos encontramos, definitivamente seria melhor revermos aquele velho conceito de que, gosto não se discute. Discute-se sim, ainda mais quando este se mostra duvidoso.
          Enfim, partindo daquela premissa de que a música que ouvimos é o espelho e o reflexo de nossa cultura, deduz-se, portanto, que a compreensão anda meio em baixa, caindo a níveis assustadores. Até porque, para quem só deseja fazer barulho e chamar atenção, somente com muito mau gosto se consegue realizar esse feito.
        Como diria o carioca, durma com um barulho desses e acorde de cara bonita!

Paulo A. Vieira

Um comentário:

  1. Para você ver como são as coisas, fones de ouvidos já vem inclusos nos celulares hoje em dia, usar a guitarra para tocar 2 notas, em uma música de "forró", forró pra min é, zabumba, triangulo, sanfona, nada de eletrônico, hoje em dia tem até djs nas músicas de forró,chamado "forró elétrico" que são repetitivas, ritmos de bateria é o mesmo para quase todas as músicas ,pais de hoje preferem influenciar seus filhos para escutar músicas do tipo: "Vou pro Cabaré,raparigar beber cachaça..."
    qual tipo de cultura essa música vai passar para seu filho um dia?".Pois é, bandas boas ta ficando em extinção, por isso é uma verdade o que você tá falando.Hoje em dia só tem lixo sonoro, principalmente o nordeste.

    Hugo

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